segunda-feira, 31 de maio de 2010

Ossip Mandelshtam

A Era

Minha era, minha fera, quem ousa,
Olhando nos teus olhos, com sangue,
Colar a coluna de tuas vértebras?
Com cimento de sangue - dois séculos -
Que jorra da garganta das coisas?
Treme o parasita, espinha langue,
Filipenso ao umbral de horas novas.

Todo ser enquanto a vida avança
Deve suportar esta cadeia
Oculta de vértebras. Em torno
Jubila uma onda. E a vida como
Frágil cartilagem de criança
Parte seu ápex: morte da ovelha,
A idade da terra em sua infância.

Junta as partes nodosas dos dias:
Soa a flauta, e o mundo está liberto,
Soa a flauta, e a vida se recria.
Angústia! A onda do tempo oscila
Batida pelo vento do século.
E a víbora na relva respira
O outo da idade, áurea medida.

Vergônteas de nova primavera!
Mas a espinha partiu-se da fera,
Bela era lastimável. Era,
Ex-pantera flexível, que volve
Para trás, riso absurdo, e descobre
Dura e dócil, na meada dos rastros,
As pegadas de seus próprios passos.

(1923)

Tradução de Haroldo de Campos

ARKADII DRAGOMOSHCHENKO

Para falar de poesia

Falar de poesia é falar do nada
ou possivelmente de algumas raias externas
(onde a língua se devora)
discernindo ou determinando um desejo
penetrar este nada, uma lei, um olho
para encontrá-lo em si mesmo, presente em nada
Impossível !
A morte não pode ser trocada por outra coisa.
Sinceridade – é o processo insaciável
de transição, de flutuação, em sentido oposto,
ou seja, eu-te-amo-não-te-amo
desaparece à beira da consciência
Não há mais tempo para a expressão
Eliminada pela simultaneidade
Onde achar um homem dançando como uma vela?
Escute, como o segundo milênio
a água avança sobre as margens – algas
A pétala-da-abelha seca seus lábios: pó em seus pés
seus quadris e ombros expostos
Lembro-me do tempo quando a lâmpada de querosene
noite fria o lilás brilhava verde, como um nervo
O halo da chama do querenosene, um hemisfério esmeralda
atraía mariposas do escuro.
O arco zênite de agosto, uma foice estrelada,
revelando os traços honestos da matéria,
pálpebras rasgadas.
Uma tela e letras, esta é a estória,
arquivo pulsante do nadir e nele, como a queima
de mariposas,
a descrição da noite aparece. Os ramais
do jardim pegam fogo,
campos magnéticos de palavras aparecem, tensos,
entrelaçados ao nada. O que mais posso falar!
O que mais dizer?
Deslizando dentro de você, no delta no meio do rio
abrindo-se, como um arco,
cuja corda está corroída
pelo silêncio.

(Traduções: Régis Bonvicino)

sexta-feira, 28 de maio de 2010

um poema de Dylan Thomas

A MÃO AO ASSINAR ESTE PAPEL


A mão ao assinar este papel arrasou uma cidade;
cinco dedos soberanos lançaram a sua taxa sobre a respiração; duplicaram o globo dos mortos e reduziram a metade um país;
estes cinco reis levaram a morte a um rei.

A mão soberana chega até um ombro descaído
e as articulações dos dedos ficaram imobilizadas pelo gesso;
uma pena de ganso serviu para pôr fim à morte
que pôs fim às palavras.

A mão ao assinar o tratado fez nascer a febre,
e cresceu a fome, e todas as pragas vieram;
maior se torna a mão que estende o seu domínio
sobre o homem por ter escrito um nome.

Os cinco reis contam os mortos mas não acalmam
a ferida que está cicatrizada, nem acariciam a fronte;
há mãos que governam a piedade como outras o céu;
mas nenhuma delas tem lágrimas para derramar.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

um poema de Cummings

na estrênua brevidade
Vida:
realejos e abril
treva, amigos

eu me lanço rindo.
Nas tintas fio-de-cabelo
da aurora amarela,
no ocaso colorido de mulheres

eu sorrisando
deslizo. Eu
na grande viagem escarlate
nado, dizendomente;

(Você sabe?) o
sim, mundo
é provavelmente feito
de rosas & alô:

(de atélogos e,cinzas)

sábado, 24 de abril de 2010

lembrar

Poética XXI
do ar
des-dobrar
não obscuro, mas claro. mistério no claro.
sobrelevar o peso do mundo
Shanagon
Paul Celan
leveza - Italo Calvino
Blanchot
Clarice
mozart
debussy
ligeti
ravel
transição e comentário do Neubauten
escola da nova simplicidade?
haikais
tankas
poética oriental
cerejeiras
novas tecnologias
dúvida: sociedade do consumo. capitalismo. as cosnequencias do que está por trás.
estética: ideal clássico? ingenuidade?
peça: bandoneon, flauta, piano, violão, contrabaixo, efeitos percussão.
entre: poética sonora do ar (poética XXI)
listar timbres alternativos para:
percussão
sopros
cordas
luminosidade e tratamento plástico do interior: sem barroquismo.
pesquisar referências nas artes plásticas
Anish Kapoor e outros.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Einstürzende Neubauten


Amo essa banda.

Tudo em aberto


"Pode levar segundos a construir uma reputação e anos - ou talvez uma eternidade - a construir outra", diz Alexander Hacke, membro dos Einstürzende Neubauten, ao telefone a partir de sua casa, em Berlim. Os alemães já não destroem palcos, nem procuram o choque pelo excesso – interessa-lhes mais agora as subtilezas, a construção de dinâmicas, tudo elementos presentes no novo Alles wieder offen.

O sucessor de Perpetuum Mobile (2004) foi inteiramente financiado pelos fãs do grupo, que pagaram a gravação, edição e promoção do álbum – é o chamado Supporters Project. Em troca, ganharam intimidade com o grupo (através de webcasts, por exemplo) e muitos brindes em forma de música exclusiva.

Em entrevista ao Bodyspace, Alexander Hacke abordou a importância de Alles wieder offen no contexto da evolução da banda e falou sobre o que mudou em Berlim nos últimos 30 anos e as potencialidades da Internet.

Tenho que começar pelo nome do disco, Alles wieder offen ("Tudo aberto de novo"). Parece atribuir uma carga especial a este disco, como se começassem de novo.

O conceito de algo aberto implica algumas coisas. Algo que está aberto ou que não está fechado, não está resolvido, nem terminado. Pode haver outra forma de o acabar. Algo que está aberto está desprotegido. Há formas diferentes de ler o título. É mais um estado de espírito e um sentimento do que uma descrição real da nossa situação.

Quando tudo está aberto há uma possibilidade ilimitada de opções e decisões a tomar. Isso pode ser uma coisa boa, mas também pode ser muito assustador. Não mudamos, continuamos a ser uma banda experimental. E quando se experimenta há sempre 50% de hipóteses de falhar.

Existe um conceito, tal como em Perpetuum Mobile, que era um disco focado no ar enquanto elemento natural?

É um disco auto-reflexivo. É sobre nós, sobre a nossa história – é a forma como eu o vejo, claro que pode haver outras leituras. É uma história de um grupo de indivíduos que passaram a maior parte das suas vidas juntos. Reflecte a história da banda, as opções que seguimos e o que o futuro pode trazer.

Isso nota-se nas canções. Vários temas citam ou evocam outros momentos de outras canções dispersas pela vossa discografia.

Tentámos criar pontes e justificar a existência deste grupo perante o mundo e nós mesmos. Nesta época, em que tudo é sobre lucro, crescer e andar mais rápido e ser mais eficaz, é importante parar e reflectir sobre o que andamos a criar, de facto. Os Neubauten foram, durante muitos anos, um monstro que andávamos a alimentar. Quando começas uma banda, encontras pessoas que aprecias e com quem decides começar a trabalhar. Mas mantém-se um grupo de indivíduos. Porém, quando se tem sucesso, a banda torna-se uma entidade, uma criatura de pleno direito e então ficas numa situação em que tens de manter a criatura viva. É geralmente esse a altura em que muitas bandas se separam, quando a pressão de trabalhar para a criatura se torna tão grande que te perdes a ti mesmo.

O Blixa Bargeld disse uma vez que cada disco dos Neubauten desapontava pessoas comparado com o anterior. Acredita que isso vai acontecer neste?

Não. É muito diverso, eclético e, por causa da sua natureza auto-reflexiva, tem elementos de várias fases da história da banda. Não acredito que alguém que goste da nossa música ou que a conheça fique desapontado. Claro que tudo o que fazemos vai desapontar pessoas que só ouviram falar de nós ou que ainda nos vêem como a banda que incendeia ou que faz buracos nos palcos.

Este disco foi financiado pelos fãs e editado pela própria banda. Como correu o Supporters Project?

Este disco foi o resultado da terceira fase do Supporters Project. Começamos o projecto em 2002. Na altura tivemos um disco na Mute Records [Perpetuum Mobile]. Nessa primeira fase, os apoiantes [supporters] tiveram o seu próprio disco com material que o comprador normal não teria. Na segunda fase (Grundstück) o resultado foi um CD e um DVD não disponíveis nas lojas. Na terceira fase, fizemos um disco para as lojas [Alles wieder offen] e produzimos a série Jewels – todos os meses, durante dois anos, púnhamos uma canção nova para download. Ainda fizemos oito discos na série Musterhaus. Ou seja, fizemos uns 10 álbuns em três anos.
Beneficiaram, talvez, do facto de não serem uma trivial banda pop, mas antes um grupo com uma legião de fãs dedicados.

A Net é um meio para pôr as pessoas em contacto. Descobrimos que podemos fazer isto com um nível de qualidade muito alto. As pessoas que nos apoiam não são o estereotipado fã de rock. Temos académicos e outras pessoas interessantes na comunidade que deixam mensagens interessantes no fórum. Descobrimos que ao ter uma referência comum – gostar de uma banda, neste caso – as pessoas são capazes de comunicar umas com as outras de uma maneira muito agradável e frutuosa. São só coisas boas.

Alguns dos apoiantes acabaram até a fazer primeiras partes do grupo.

Fizemos isso numa digressão. Descobrimos coisas muito interessantes. Foi muito divertido.

Como compara a Berlim de hoje com a cidade que viu nascer a banda, em 1980?

Nasci e fui educado numa cidade chamada Berlim Ocidental. Essa cidade já não existe, já lá não está. Não era bem uma cidade, era mais uma aldeia. E era uma ilha, desligada e separada do resto do mundo. Tinha uma pequena cena de criativos. Era muito fácil qualquer pessoa se integrar.

Neste momento, Berlim é a capital da Alemanha, temos aqui o governo, as grandes multinacionais. Por isso, a cidade tem exigências completamente diferentes do que antes: há muito mais exigências de segurança, não há espaços livres e não utilizados como antes; procura-se muito o dinheiro e ele chega através do turismo. E para ter turistas oferece-se um cenário muito seguro. Mas esta cidade vai ser capaz de viver durante 50 anos da sua reputação, mesmo que fechem todos os clubes de música e os estúdios de arte, até que as pessoas percebam que já não se passa nada aqui.

No início da banda diziam que o mundo ia acabar em 1984. Imagino como foi ver que, afinal, a Terra ainda tinha mais uns cartuchos para gastar.

Era um conceito mitológico. Foi muito natural ter essa maneira apocalíptica de ver o mundo. Ligava-se muito bem à forma como destruímos os nossos corpos e mentes na altura [risos].

Como é que foi começar a banda tendo esse cenário apocalíptico? Estimulava a urgência criativa?

Era uma projecção auto-suficiente que permitia justificar o nosso extremismo. Marcámos esse prazo [1984]. Mas não ficamos desiludidos por estarmos a trabalhar em 1985. Eu era adolescente… era muito radical nas minhas opiniões, no meu comportamento. Funcionava bem para mim.

Juntou-se à banda com 15 anos. Tinha conceitos de avant garde ou a sua abordagem foi menos intelectual do que isso?

Não, de todo. Saiu naturalmente. Inspirei-me na cena punk rock, talvez nos Ramones. Estava interessado em energia em bruto. Gostava de armar sarilhos. Comecei a interessar-me neste tipo de coisas e procurei pessoas com os mesmos interesses e que ouvissem música que os meus colegas de turma não gostassem. Estava sempre a procurar coisas mais extremas e estranhas.

Hoje as coisas são diferentes. Já não procuram a agressão contínua e sem tréguas. O título do disco, e também de uma canção, Silence is Sexy (2000) ainda parece manter-se como um lema para a banda.

Mesmo assim, a canção diz logo a seguir "Your silence is not sexy at all!". Hoje em dia, numa era em que há uma overdose de informação, a única forma de ter impacto e de chocar as pessoas é cortar esse fluxo constante de informação. Se, de repente, uma estação de rádio emitisse silêncio, se o canal de 24 horas fosse abaixo, isso é a coisa mais assustadora que pode acontecer – já não é o ruído, nem o conteúdo extremo. É quando se desligam as coisas que as pessoas se começam a preocupar.

27 anos depois, como vê a evolução da banda?

Educámo-nos a nós mesmos. Quando começámos não sabíamos como funcionava um estúdio, nem como tocar instrumentos. Claro que aprendemos a tocá-los – se não fosse assim estaríamos no emprego errado. Gosto sempre de comparar isto ao boxe: quando se começa a carreira enquanto pugilista, costuma-se ser muito explosivo, cheio de energia e agressão e muito bom no que se faz. Mas, quando se envelhece, não se pode manter essa quantidade de energia e a única coisa que se pode fazer é aprender como canalizar essa energia, como usar os murros com eficácia, no tempo e local correctos.

Tentamos sempre pesquisar todos os campos do processo criativo. Estamos sempre a tentar encontrar formas de escrever música de forma diferente, fazer arranjos inovadores, encontrar novos materiais e fontes sonoras para não nos limitarmos aos instrumentos que se podem comprar nas lojas.

Nos últimos anos, criaram um sistema de cartões que me faz lembrar um pouco o que o John Zorn faz no Cobra.

Chama-se Dave. É o nosso oráculo, o nosso sistema divino… Tem cerca de 600 cartões. O Blixa ouviu o nosso trabalho ao longo destes anos e foi tirando notas sobre as coisas mais significativas dessa canção (frequências baixas, etc.), todo o tipo de associações e conceitos. Os cartões dizem-nos o que fazer. [O sistema] Obriga-nos a tocar instrumentos diferentes e permite combinar ordens diferentes com o objectivo de chegar a um significado.

No álbum Jewels, cada canção era baseada no jogo Dave, no que Dave nos mandava fazer, e as letras baseiam-se em sonhos do Blixa. É uma forma de nos ligar à fonte da inspiração, de termos uma ligação mais directa ao poder divino da criatividade, seja lá o que isso for [risos].
Li que você é uma espécie de director musical da banda.

Isso aconteceu quando mudei para o baixo, quando saiu o Marc Chung [em 1994]. O baixo sempre foi a fundação harmónica dos Neubauten, por isso decidi mudar-me para o baixo. Tive que ensinar o novo guitarrista como tocar harmonicamente a música do passado dos Neubauten. Envolvi-me mais na fundação da música. Faço o que faço porque sou bom nisto. Sinto que sou capaz de ajudar outros membros da banda.

O que vão fazer agora? O Supporters Project vai continuar?

Vamos suspender agora com a terceira fase. Até aqui, sempre que uma subscrição terminava começava outra. Não vamos fazer isso. Trabalhámos muito no último ano. Vamos em digressão para promover este disco e depois descansar - os membros dos Neubauten trabalham noutros projectos e trabalhos. Sempre foi assim e sempre será. Se os Neubauten fossem o nosso único veículo criativo não estávamos a fazer isto ainda.

Participou, por exemplo, em várias bandas sonoras e foi protagonista num documentário sobre a música de Istambul. Precisa de ter estes veículos paralelos aos Neubauten?

Em primeiro lugar, é uma necessidade económica [risos]. Seria impossível sobreviver só com os Neubauten. Mas é também uma necessidade artística, porque há música que só posso tocar com os Neubauten, mas há também outras coisas que quero tocar e que não cabem nos Neubauten. Todos os músicos dos Neubauten têm projectos paralelos pelas mesmas razões. Isto alimenta a banda com novas ideias

Aproveita muitas viagens para trabalhar nos seus projectos. Andar de headphones permite-lhe abstrair-se das viagens?

Não, eu gosto de estar muito atento a tudo. Hoje em dia toda a gente em Berlim anda de headphones no metro. É uma coisa individualista. Venho de uma geração em que tínhamos boomboxes [equipamentos portáteis com grande potência]. Só faço trabalhos sonoros nos aeroportos. Quando estou a voar gosto de trabalhar no meu computador. Noutras situações, prefiro estar alerta. Não me quero separar do mundo audível à minha volta. Felizmente, hoje há muitas tecnologias que permitem trabalhar rapidamente, gravar com velocidade e qualidade.

É incrível como, tantos anos depois, essa vossa reputação ainda não desapareceu.

Pode levar segundos a construir uma reputação e anos - ou talvez uma eternidade - a construir outra [risos].

Pedro Rios

Alexander Hacke (baixista do Neubauten em entrevista/out 2007)

terça-feira, 13 de abril de 2010

sexta-feira, 9 de abril de 2010

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Marcel Duchamp, Mile of String

In 1942, Andre Breton organised a retrospective exhibition of Surrealist art in New York: First Papers of Surrealism. For the vernissage Marcel Duchamp created this installation – a gigantic web – called the Mile of String. He and Breton furthermore arranged for a number of children to ball in the room thereby making it very difficult for the guests to see the paintings


terça-feira, 6 de abril de 2010

arriscar o impossível

ZIZEK, Slavoj e DALY, Glyn. Arriscar o impossível: conversas com Zizek. Trad. Vera Ribeiro. São Paulo: Martins fontes, 2006. (Coleção Dialética).

"Não é por acaso que Zizek chega ao fim do seu livro, referindo-se à ética da
psicanálise: “É preciso arriscar e decidir. É essa a lição de Lacan. Não ceda em seu desejo. Não busque apoio em nenhuma forma de Outro maiúsculo — mesmo que esse Outro maiúsculo seja totalmente vazio, ou seja uma injunção incondicional levinasiana.

É preciso arriscar o ato sem garantias. Nesse sentido, o fundamento supremo da ética é político. E, para Lacan, a ética despolitizada é uma traição ética, porque se põe a culpa no Outro. A ética despolitizada significa que você confia em alguma imagem do grande Outro. Mas o ato lacaniano é, precisamente, o ato em que você presume que não existe grande Outro” (p.201). (…) Ou seja, em certo momento, é preciso assumir a responsabilidade pelo ato” (p. 203)".

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Falando poesia

Hora Grave

Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.

Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.

Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.

(Rilke)

sábado, 3 de abril de 2010

Torno a perder a noção das coisas

É tarde, tarde.
Sinto os frutos amuderecem nas mãos.
Tu me deixaste só com meu aquário de incertezas.
Os dedos vão passando pelas pérolas deste colar do tempo.
O tempo de outrora já ficaste na esfera anterior.
Carrego todas em meu pescoço, na garganta, nos olhos.
Tu ficaste em uma delas à qual vou me esquecendo.
Guardo um amor de pérola em um colar de memória.
Sinto muito. Sinto uma dor clara como a brisa.
É tarde e sinto tua falta, minha jovem.
Há alguém que salve para mim? Para ti?
Devo voltar-me às minhas convicções,
aos propósitos deste mundo?
Qual acaso mudará essa gravitação?
Qual correspondência?
Qual encontro?
Quem?
O quê?
Uma brevidade,
um adeus,
uma travessia,
e estou só,
mais uma vez.
Mais triste,
e com mais ou menos vida.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Spiritual Voices

"O vestígio anuncia o tempo que fará".

um beijo para Emily Dickinson

Noites Loucas — Noites Loucas!

Estivesse eu contigo
Noites Loucas seriam
Nosso luxuoso abrigo!

Para Coração em porto —
Ventos — são coisas fúteis —
Bússolas — dispensáveis —
Portulanos — inúteis!

Navegando em pleno Éden —
Ah, o Mar!
Quem dera — esta Noite — em Ti
Ancorar!

O tom maior de Bach: Concertos de Brandemburgo nº 1







O

quarta-feira, 31 de março de 2010

A MORTE

A morte é uma flor que só abre uma vez.
Mas quando abre, nada se abre com ela.
Abre sempre que quer, e fora de estação.

E vem, grande mariposa, adornando caules ondulantes.
Deixa-me ser o caule forte da sua alegria.
RETRATO DE UMA SOMBRA

Os teus olhos, rasto de luz dos meus passos;
a tua testa, lavrada pelo brilho dos punhais;
as tuas sobrancelhas, orla do caminho da tragédia;
as tuas pestanas, mensageiros de longas cartas;
os teus cabelos, corvos, corvos, corvos;
as tuas faces, campo de armas da madrugada;
os teus lábios, hóspedes tardios;
os teus ombros, estátua do esquecimento;
os teus seios, amigos das minhas serpentes;
os teus braços, álamos à porta do castelo;
as tuas mãos, tábuas de juras mortas;
as tuas ancas, pão e esperança;
o teu sexo, lei do fogo na floresta;
as tuas coxas, asas no abismo;
os teus joelhos, máscaras da tua altivez;
os teus pés, campo de batalha dos pensamentos;
as tuas solas, criptas em chamas;
as tuas pegadas, olho da nossa despedida.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Marianne Moore, no dia das mulheres

POESIA
Também não gosto.
Lendo-a, no entanto, com total desprezo,
a gente acaba descobrindo
nela, afinal de contas, um lugar para o genuíno.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

domingo, 7 de fevereiro de 2010

sair para ver

Sentir sempre uma chama violenta, manter esse êxtase, é o sucesso na vida... Enquanto tudo se funde sob nossos pés, ainda podemos recuperar o perdido através de uma paixão diferente, ou qualquer outra contribuição que pareça ser um novo horizonte para a liberdade do nosso espírito, ou uma exaltação dos sentidos, cores estranhas e odores curiosos, ou o trabalho dos artistas, ou o rosto de um amigo... Com todo esse sentido do esplêndor de nossa experiência e sua terrível e breve duração, abrangendo tudo que em nosso desesperado esfôrço queremos ver e tocar, dificilmente teremos tempo para formular teorias sobre o que vemos ou tocamos. O que nos resta é permanecer para sempre ouvindo, curiosamente, novas opiniões e colhendo novas impressões.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

... e um dia Andrei sonhou, e juntos nós levitamos para lá ...

protesto aqui com as veias repletas de estrelas:

a carreta estava on the road.
na boléia a juventude eterna, os loucos de Keroauc, os pinos redondos nos buracos quadrados.

os yuppies deram uma guinada poderosa no voltante das gerações.
essa guinada ainda está em processo, em slow motion, não sabemos ainda se iremos capotar ou despencar no precipício ou quem sabe atravessar a pista e chocar com um trem, um ônibus espacial, um andarilho, ou ciclistas aventureiros. Qual desfiladeiro?

minha geração já não é uma beat generation. Nem a de 68. Somos uma resultante esquálida de um processo engendrado pelo sistema financeiro mundial e que foi incorporado pelos nossos pais e que agora lentamente e subtamente incorporamos. Ninguém mais habita as ruas, nem sai às ruas para conversar com transeuntes, transá-los, poetizar. A arte virou coisa institucional, fechada aos que possuem as credenciais de acesso. Aos que possuem pouco ou muito dinheiro. Aos iniciados por autoridades, formados em espaços privados. ACESSO NEGADO é o que diz o letreiro.

E a violência, a desumanização e a banalização se generaliza e multiplica. O golpe do terror, dos corruptos, dos falsários, dos medíocres, do crime-organizado. As trevas se escancaram. E o contrário disso tudo se atrofia e aqui e ali tenta encontrar ar, em espasmos de agonia.

é preciso ser vagabundo, iluminado, apaixonado. É preciso sentir e cultivar uma inquietação, uma ânsia pela beleza, um amor pelo conhecimento, por desarrumação e por uma outra ordem simbólica dos fatos. Há um sentido na vida. Há um destino: o outro-diferente-de-si-mesmo.

então, você, meu amigo(a), vamos lá?
Vamos transportar o fogo nas mãos?

the one page
left my hand
falling like leaves
calling like breezes
making the moments
finding a reason
to be

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Keith Jarret, um músico...

Saiu na Folha do último domingo uma matéria sobre o pianista Keith Jarret. Nela ele disse:

"O ano passado me ensinou muito sobre a natureza humana.
As pessoas são profundas, as pessoas são criaturas com pouco a que se apegar.
Tocar pode ser uma viagem a um território emocional, mas também representa um salva-vidas."

No I Ching - O livro das mutações datado de 3.000 anos a.c possui uma parte dedicado à música: Yo Ching. Nela há uma passagem que diz mais ou menso assim:

sobre a música:
"o mais profundo da emoção com o qual ainda não se pode conhecer".

Um amigo meu e grande artista, Rufo Herrera, disse outro dia algo do tipo:
(não me lembro das palavras tim-tim po tim-tim. Espero não estar traindo as palavras de um amigo).

"Nós ainda não compreendemos ou 'captamos' o que a música tem a nos oferecer. A música está muito a frente de nós".

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

escrito na confusão de álcool e dor

TH

Pequena,
branca,
e um odor de carne em flor.
Tu atrais olhos e não és frágil.
Portão de ferro, você não tem tamanho para tanto arranco!
Jubilosa criatura que sustem a prata perfurada
e sopra mudanças de ar.
Sim, onde estiver Ela estará contigo,
aquilo que amarra: o sonoro.
Uma e outra cicatriz sua me acena uma idade madura,
a cor de uma romã.
A solidão lhe perfura e arde
Tu vibras e sabes ser amante.
Estertor.
Estupor.
O outro cintila à frente e tu silencias,
Só ouve o desejo mudo.
Diga-me, qual teu segredo?
Olhos negros, opacos, que não sei dizer quem.
Diga-me, qual tua dor?
Tuas mãos operam carícias, arranjos,
e ofereces ao mundo, a mim, ao Tu.
Tu me afiguras grande e inteira.
Busca o conforto de braços e laços leitos: a encaracolada junção.
Careces do outro, aquele que lhe despertará refluxos, sol, risos.
Ainda te verei altiva aos ventos da proa,
Minha pequena ouvinte dos desígnios.
És quem transporta a chama. És quem guarda o mágico.
Sou-te adorador fiel do mundo guardado.
Leve-me contigo e acolha meu ventre desraigado.
Lança-me sua complexa idade.
Lança-me seu grito, sua sussurrada confissão,
e atira-nos seu coração.
Tu desperdiçaste-me a toa.
Tu morreste pra mim.
Contudo,
 vivemos no mundo
E o mundo vive em você.
Meu anjo, minha dor,
Não somos a parte mais importante desse mundo.
Mas nós e o mundo, ainda vivos,
precisamos de ti.
Cuide-
se.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

tão perto tão longe

Uzalá!

Para pessoas feitas de mel
Minha esfera é de madeira

Cravos os dentes nessa tábua
Respiro ouro de tua apariação

Fiaposóis

Um alto pensamento
Agarra o tomluz

Um chapéu alemão
Guarda divagações

E é úmido esse refúgio de chuvas

Entorno baldes cristalinos
Aspiro poeiras
Expiro frequências
Tramo ramos harmônicos
E é voltátil a matéria

Juro
Somos feitos de som
Minhas escamas são cinzas
Quem passa esfumaça

Radiante um colar
Raios os olhos
Radiosos cabelos

Uma canção Mahler

Aqui
Aquém
Além

Vou-me
Volta

Tua pela radiante me darda

Muito
Menos

Tão perto
Tão longe

Cabana 

Em seu seio
Em sua cia
Com quem estar?
Há alguém que me entenda?
Um em miliumanoites?

Tua voz
Tua mão
Essas presenças vibratéis

Tu transpira dourado
E eu tremo:

te amo

A uma devagarosa mulher no mundo
Do mundo
O amor em visita

Torna
Retorna
Entorna

A ti

Música!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Esqueço ela

Enquanto a cidade de negócios dorme
Todos seus problemas mentem acordados
Eu ando pelas ruas para acabar com meu choro
Mas ela nunca vai mudar os jeitos dela

Não se engane
Ela era angústia do momento que você a conheceu
Meu coração ainda se sente assim
Como eu tentei achar o desejo de esquecê-la de alguma forma
Eu acho que eu a esqueci agora

O amor dela é uma rosa morta e agonizante
Tirando suas pétalas e um homem que conheço
Todo cheio de vinho o mundo antes dela
Mas se torna sombrio com nenhum lugar pra ir

Minhas lágrimas caiam quando tentava esquecer
O amor que era uma brincadeira do dia que nos conhecemos
Tudo das palavras tudo dos homens dela
Tudo da minha dor quando me lembro de quando
Relembro do cabelo dela quando brilhava no sol
E eu estava lá na cama quando eu soube o que ela fazia
Falar pra você mesmo várias vezes que você nunca vai
Precisar mais dela

Não se engane
Ela era angústia do momento que a conheci
Meu coração ainda está envenenado
Quando tento achar o desejo de esquecê-la de alguma forma
Ela esta lá fora em algum lugar agora

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

M. de Barros

A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou - eu não aceito.
Não agüento ser apenas um
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas.