sexta-feira, 18 de junho de 2010

18 de junho



Hoje completo 28 anos. 2.8 de potência. O que me reserva os próximos 28? Chegarei lá? Como estarei, o que me tornarei?

"Em qual mansão ausente do meu coração pudera eu sob o céu vagar?"
Rilke

“Você olha um relógio. Ele funciona, mostra as horas. Você tenta compreender como ele funciona e o desmonta. Ele não anda mais. E no entanto essa é a única maneira de compreender…”
Tarkovsky

Meu aniversário vs. seu desaniversário rssss



(...)

"Evidentemente Humpty Dumpty estava muito bravo, embora nada dissesse durante um minuto ou dois. Quando ele falou de novo, foi num resmungo profundo.

– É uma coisa... muito... provocativa – disse finalmente – quando uma pessoa não distingue uma gravata de um cinto!

– Sei que é muita ignorância de minha parte – Alice disse, com uma humildade que abrandou Humpty Dumpty.

– É uma gravata, criança, e uma bem bonita, como diz você. E um presente do Rei Branco e da Rainha. É isso!

– É mesmo? – disse Alice, satisfeita de ter escolhido um bom assunto afinal.

– Deram-na a mim, – Humpty Dumpty continuou pensativo, enquanto cruzava um joelho sobre o outro e entrançava os dedos ao redor – deram-na a mim... como um presente de desaniversário.

– Perdão...? – Alice perguntou com ar espantado.

– Não estou ofendido – disse Humpty Dumpty.

– Quero dizer, o que é um presente de desaniversário?

– Um presente que se dá quando não é o seu aniversário, obviamente.
Alice refletiu um pouco.

– Gosto mais de presentes de aniversário – concluiu.

– Você não sabe do que está falando! – gritou Humpty Dumpty. – Quantos dias existem num ano?

– Trezentos e sessenta e cinco – respondeu Alice.

– E quantos aniversários você faz?

– Um.

– E se você tira um de trezentos e sessenta e cinco, quanto fica?

– Trezentos e sessenta e quatro, é claro.
Humpty Dumpty ficou em dúvida.

– Eu gostaria de ver isso no papel – disse.
Alice não pôde deixar de sorrir quando apanhou sua caderneta e fez a conta para ele:

3 6 5
-1
_____
3 6 4

Humpty Dumpty pegou a caderneta e examinou-a com cuidado.

– Parece estar certo... – começou.

– Está de cabeça para baixo! – Alice interrompeu.

– É com certeza que estava! – Humpty Dumpty disse com satisfação, quando ela a virou para ele. – Achei que parecia um pouco estranha. Como eu ia dizendo, parece estar certo... embora eu não tenha tempo para conferi-lo outra vez agora... E isso mostra que existem trezentos e sessenta e quatro dias em que você poderia ganhar presentes de desaniversário...

– Por certo – disse Alice.

– E apenas um para presentes de aniversário, portanto. Há gloria para você!

– Não sei o que você quer dizer com "glória" – Alice disse.
Humpty Dumpty sorriu com desdém.

– É óbvio que não sabe... até que eu lhe diga. Eu quis dizer: “Há um belo argumento infalível para você!”

– Mas “glória” não significa “um belo argumento infalível” – Alice objetou.

– Quando eu uso uma palavra, – Humpty Dumpty disse com certo desprezo – ela significa o que eu quiser que ela signifique... Nem mais nem menos.

– A questão é – disse Alice – se você pode fazer as palavras significarem tantas coisas diferentes.

– A questão é – disse Humpty Dumpty – quem será o chefe... E eis tudo."

(...)

Alice atracés do espelho e o que ela encontrou lá
Lewis Carrol
(trad. de Sebastião Uchoa Leite)

Mapa

Me colaram no tempo, me puseram
uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou
limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.
Me vejo numa nebulosa, rodando, sou um fluido,
depois chego à consciência da terra, ando como os outros,
me pregam numa cruz, numa única vida.
Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.

Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos.
Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,
gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,
alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem
nem o mal.

Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter,
tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamentos,
não acredito em nenhuma técnica.

Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas,
é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários,
depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,
na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim.

Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações…
Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida.
Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça.
Triângulos, estrelas, noites, mulheres andando,
presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção,
o mundo vai mudar a cara,
a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas. Andarei no ar.

Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,
me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.

Tudo transparecerá:
vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra,
o vento que vem da eternidade suspenderá os passos,
dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres,
vibrarei nos cangerês do mar, abraçarei as almas no ar,
me insinuarei nos quatro cantos do mundo.

Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes.
Detesto os que se tapeiam,
os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens “práticos”…
Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,
os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,
as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.
Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito…
viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.

Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,
dos amores raros que tive,
vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,
tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me inscrevo em nenhuma teoria,
estou no ar,
na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,
no meu quarto modesto da praia de Botafogo,
no pensamento dos homens que movem o mundo,
nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,
sempre
em transformação.


Murilo Mendes, um dos mais importantes poetas brasileiros, nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 13 de maio de 1901 e morreu em Lisboa, no dia 13 de agosto de 1975.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Finn again....


Ontem foi o Bloomsday. A programação organizada no museu Inimá de Paula pelo pessoal do Grupo Oficcina Multimédia foi muito legal. O clima estava agradável e senti um astral muito bom por parte do público e dos participantes. Puxa! Uma noite para curtir e compartilhar os universos de Joyce e Carrol!

Destaco o bazar e os "suvenirs" produzidos pelo pessoal do GOM. Muito legal também o trabalho plástico da Adriana Peliano inspirado em Alice. É como se nós nos transpuséssemos para o outro lado enquanto a Drica ia comentando sobre o que encontramos ou encontraremos lá. Muito divertido e hilário o leilão de pertences do Joyce. Pena que eu não arrematei nenhum iten! Inestimável o pum engarrafado de Nora!

Valeu também a intenção da improvisação sonora do Ü! Foi um pouco complicado ajustar o som para a acústica do espaço e garantir que o blocos palavra/som fossem bem definidos, que as palabras fossem pipocando de maneira clara e tudo transcorresse de forma fluída no tempo. É uma proposta nada-fácil e que merece dedicação e apuro!

Deixo aqui a título de curiosidade e registro o roteiro dessa intervenção. Vale lembrar que nosso amigo Carlão ajudou ficando sentado na primeira fila e acenava com o celular no momento que teríamos que mudar de sessão já que a gente não tinha um controle do tempo... (Valeu Carlão!!)

Era grelhúsculo:

Roteiro da performance (proposta):

Video: edição de 10 min de paisagem que escurece (dia para a noite)

PRIMEIRA PARTE: O incriado (Era do caos)
Caráter: calma, precipitação.
Dinâmica: pianíssimo crescendo lentamente até um mezzo-piano.
Elementos: Sons agudos, ritmos indefinidos, assimétricos, atonais, aleatórios.
Imagem: paisagem esfumaçada, etérea.
Vozes: vocalises, grunhidos, gemidos, soluços e sons articulados sem definir palavras
Duração: 2'30" min.

TRANSIÇÃO: Gênese (Era teocrática)

Caráter: aspiração, o belo, espiritual.
Dinâmica: mezzo-forte
Elemento: Canto, tutti de nota longa, definida, em uníssono.
Imagem: côro, surgimento de uma luz.
Duração: 30"

SEGUNDA PARTE: Humpty Dumpty (Era aristocrática)
Caráter: organização, controle, jogo.
Dinâmica: mezzo-forte
Elementos: mantra organizado em ritmo binário e pendular.
Imagem: Ovo (Humpty Dumpty) equilibrando e oscilando em cima do muro.
Vozes: surgimento da palavra. Variação de palavras-valises que encaixem no ritmo pendular.
Duração: 2'30"

TRANSIÇÃO: Queda
Caráter: movimento
Dinâmica: forte
Elemento: som eletrônico disparado que simula uma queda
Imagem: a queda do ovo, de Finnegan, das cabeças, da humanidade, do muro de Berlim, das torres gêmeas..
Vozes: Palavra-trovão. Aos poucos o fluxo de palavras se intensifica e se desgarra do ritmo pendular criando uma textura de palavras em cintilação, constelação, caleidoscópica, ritmo assimétrico.
Duração: 30"

TERCEIRA PARTE: (Era democrática)
Caráter: demência, jocozidade, comicidade, frenezi, alucinação.
Dinâmica: oscilações (crescendos e decrescendos) entre piano e forte.
Elementos: groove do baixo, acordes no teclado, improvisos e solos de trompete e sax, texturas e frases rápidas na guitarra.
Imagem: Rei e Rainha de copas
Vozes: Diálogos obsessivos entre homem e mulher. Indagações de Alice.
Duração: 4'

FIM: Repetição obsessiva: "Cortem as cabeças! Cortem as cabeças!" 
"Minha ahhhhhh (cabeça cai!)"

Valeu demais!

Obrigado ao Joyce, ao Carrol, ao Gom, ao Inimá de Paula, ao Maurício, ao Ü, ao Vinikov, ao Marquim, ao Lucas e a todos que perderam 10 min do seu tempo hehehe!

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Bloomsday 2010 em BH


"Era grelhúsculo”...

Intervenção cênico-sonora com Ü e convidados

“Era grelhúsculo...” Nossa! Que palavra esdrúxula, estranha, meio aberrante e monstruosa não parece? Mas é assim que inicia o poema Jabberwocky de Lewis Carroll na tradução de Renato Suttana. O poema aparece no livro de Alice através do espelho no capítulo em que ela encontra Humpty Dumpty, o ovo que se equilibra em cima do muro. Esse poema teria inspirado James Joyce na criação do seu empreendimento literário mais ousado: o Finnegans Wake. “Era” alude ao início das inúmeras histórias infantis como em “Era uma vez...” e contém também o sentido de época, de tempo histórico como em “Na era medieval” ou como em “A era” o título de um poema de Madelstam. Grelhúsculo é uma palavra valise. Uma palavra inteiramente nova que incorpora duas palavras em uma só com dois sentidos diferentes: grelhúsculo = crepúsculo + grelha, o fogo que é usado pra preparar o jantar.

O Ü é uma banda de rock experimental de Belo Horizonte com influências do pós-punk, free-jazz e outras sonoridades cyber tropicais... foramdo por Pulinha (vocal), Miguel (baixo), Chico (saxofones), Marcelo (guitarra) e Pedro (baixo)

Os convidados: Vinicios (da banda Dead Lovers) nos vocais, Marcos (da banda Junkie Dogs) no teclado e Lucas (da banda Constantina) no trompete.

Nossa participação nesse Bloomsday 2010 segue o espírito to joy: Jogar, divertir, criar uma intervenção sonora e visual para abarcar um pouco do universo joyceano e carrolleano.

Basicamente nos inspiramos no Joyce no Finnegans Wake e na Alice, mais exatamente no diálogo do Humpty Dumpty.

Não pode passar de 10 min...

Por enquanto a coisa ainda não está muito definida (estamos brincando e descobrindo ainda...), mas ao que tudo indica iremos fazer um som que parte do nascimento do som e da palavra (como no gênesis...), até a palavra ir surgindo e se fixar em um ritmo pendular que é o movimento do Humty Dumpty. Aos poucos tudo vai se juntando nesse ritmo cíclico, oscilante, enquanto as palavras vão germinando e polulando até finalmente tudo se deslocar para uma constelação de palavras em que o ritmo se torne assimétrico e caleidoscópico... Aí a coisa vai para um diálogo nonsense, um surto psicótico da Alice (que está ficando engraçado!) parecido com o rei e a rainha de copas no livro... cortem-lhe as cabeças! Finalmente a idéia é finalizar em uma alicinação, um espasmo coletivo...demência total!

Tudo pode sugerir a idéia de uma queda, a grande queda do ovo, a queda do Finnegans, a queda mítica de toda a humanidade...

Junto com esse “roteiro sonoro” será projetado um vídeo extraído do documentário “Spiritual Voices” do diretor russo Sokurov. Uma imagem fixa, imóvel, que enquadra uma paisagem distante, invernal, bucólica e onírica e que aos poucos se transforma passando do claro (dia) e vai para o escuro (noite).. o crepúsulo, o grelhúsculo...

E como todo bom jogo tem uma regra, como no xadrez que encantou Lewis Carroll, a regra pra fazer essa intervenção e pra quem for lá no Inimá de Paula no dia 16 de junho é: cortem as cabeças!!

Devir animaaaaaaal!

Assim, monstruoso igual o jaguadarte Uuuhhhrrrr!!!!

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Orient Express

Um amigo meu está indo pra Istanbul. Outros dois, músicos, estão em Portugal e claro que vão dar uma voltinha pela europa... Pra todos espero que mergulhem nesse mundo estranho e que possam ser guiados pelos sons, pela música e descobrir novos rumos, novas cores, timbres, texturas e energias. À procura de novas mitocôndrias...

segunda-feira, 7 de junho de 2010

um poema de J.L. Borges

JAMES JOYCE

Em um dia do homem estão os dias
do tempo, desde aquele inconcebível
dia inicial do tempo, em que um terrível
Deus estabeleceu os dias e agonias,
até esse outro em que o onipresente rio
do tempo terreno retorne à sua fonte,
que é o Eterno, e que se apague no presente,
o futuro, o ontem, o que agora é meu.
Entre a aurora e a noite está a história
universal. Da noite vejo
a meus pés os caminhos do hebreu,
Cartago aniquilada, Inferno e Glória.
Dai-me, Senhor, coragem e alegria
para escalar o cume deste dia.

J. L. Borges.
(do livro Elogio da Sombra)


The Farthest Place - John Adms



"As mulheres são amorosas e os homens são solitários.
Eles se roubam mutuamente a solidão e o amor."
René Char

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Ossip Mandelshtam

A Era

Minha era, minha fera, quem ousa,
Olhando nos teus olhos, com sangue,
Colar a coluna de tuas vértebras?
Com cimento de sangue - dois séculos -
Que jorra da garganta das coisas?
Treme o parasita, espinha langue,
Filipenso ao umbral de horas novas.

Todo ser enquanto a vida avança
Deve suportar esta cadeia
Oculta de vértebras. Em torno
Jubila uma onda. E a vida como
Frágil cartilagem de criança
Parte seu ápex: morte da ovelha,
A idade da terra em sua infância.

Junta as partes nodosas dos dias:
Soa a flauta, e o mundo está liberto,
Soa a flauta, e a vida se recria.
Angústia! A onda do tempo oscila
Batida pelo vento do século.
E a víbora na relva respira
O outo da idade, áurea medida.

Vergônteas de nova primavera!
Mas a espinha partiu-se da fera,
Bela era lastimável. Era,
Ex-pantera flexível, que volve
Para trás, riso absurdo, e descobre
Dura e dócil, na meada dos rastros,
As pegadas de seus próprios passos.

(1923)

Tradução de Haroldo de Campos

ARKADII DRAGOMOSHCHENKO

Para falar de poesia

Falar de poesia é falar do nada
ou possivelmente de algumas raias externas
(onde a língua se devora)
discernindo ou determinando um desejo
penetrar este nada, uma lei, um olho
para encontrá-lo em si mesmo, presente em nada
Impossível !
A morte não pode ser trocada por outra coisa.
Sinceridade – é o processo insaciável
de transição, de flutuação, em sentido oposto,
ou seja, eu-te-amo-não-te-amo
desaparece à beira da consciência
Não há mais tempo para a expressão
Eliminada pela simultaneidade
Onde achar um homem dançando como uma vela?
Escute, como o segundo milênio
a água avança sobre as margens – algas
A pétala-da-abelha seca seus lábios: pó em seus pés
seus quadris e ombros expostos
Lembro-me do tempo quando a lâmpada de querosene
noite fria o lilás brilhava verde, como um nervo
O halo da chama do querenosene, um hemisfério esmeralda
atraía mariposas do escuro.
O arco zênite de agosto, uma foice estrelada,
revelando os traços honestos da matéria,
pálpebras rasgadas.
Uma tela e letras, esta é a estória,
arquivo pulsante do nadir e nele, como a queima
de mariposas,
a descrição da noite aparece. Os ramais
do jardim pegam fogo,
campos magnéticos de palavras aparecem, tensos,
entrelaçados ao nada. O que mais posso falar!
O que mais dizer?
Deslizando dentro de você, no delta no meio do rio
abrindo-se, como um arco,
cuja corda está corroída
pelo silêncio.

(Traduções: Régis Bonvicino)

sexta-feira, 28 de maio de 2010

um poema de Dylan Thomas

A MÃO AO ASSINAR ESTE PAPEL


A mão ao assinar este papel arrasou uma cidade;
cinco dedos soberanos lançaram a sua taxa sobre a respiração; duplicaram o globo dos mortos e reduziram a metade um país;
estes cinco reis levaram a morte a um rei.

A mão soberana chega até um ombro descaído
e as articulações dos dedos ficaram imobilizadas pelo gesso;
uma pena de ganso serviu para pôr fim à morte
que pôs fim às palavras.

A mão ao assinar o tratado fez nascer a febre,
e cresceu a fome, e todas as pragas vieram;
maior se torna a mão que estende o seu domínio
sobre o homem por ter escrito um nome.

Os cinco reis contam os mortos mas não acalmam
a ferida que está cicatrizada, nem acariciam a fronte;
há mãos que governam a piedade como outras o céu;
mas nenhuma delas tem lágrimas para derramar.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

um poema de Cummings

na estrênua brevidade
Vida:
realejos e abril
treva, amigos

eu me lanço rindo.
Nas tintas fio-de-cabelo
da aurora amarela,
no ocaso colorido de mulheres

eu sorrisando
deslizo. Eu
na grande viagem escarlate
nado, dizendomente;

(Você sabe?) o
sim, mundo
é provavelmente feito
de rosas & alô:

(de atélogos e,cinzas)

sábado, 24 de abril de 2010

lembrar

Poética XXI
do ar
des-dobrar
não obscuro, mas claro. mistério no claro.
sobrelevar o peso do mundo
Shanagon
Paul Celan
leveza - Italo Calvino
Blanchot
Clarice
mozart
debussy
ligeti
ravel
transição e comentário do Neubauten
escola da nova simplicidade?
haikais
tankas
poética oriental
cerejeiras
novas tecnologias
dúvida: sociedade do consumo. capitalismo. as cosnequencias do que está por trás.
estética: ideal clássico? ingenuidade?
peça: bandoneon, flauta, piano, violão, contrabaixo, efeitos percussão.
entre: poética sonora do ar (poética XXI)
listar timbres alternativos para:
percussão
sopros
cordas
luminosidade e tratamento plástico do interior: sem barroquismo.
pesquisar referências nas artes plásticas
Anish Kapoor e outros.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Einstürzende Neubauten


Amo essa banda.

Tudo em aberto


"Pode levar segundos a construir uma reputação e anos - ou talvez uma eternidade - a construir outra", diz Alexander Hacke, membro dos Einstürzende Neubauten, ao telefone a partir de sua casa, em Berlim. Os alemães já não destroem palcos, nem procuram o choque pelo excesso – interessa-lhes mais agora as subtilezas, a construção de dinâmicas, tudo elementos presentes no novo Alles wieder offen.

O sucessor de Perpetuum Mobile (2004) foi inteiramente financiado pelos fãs do grupo, que pagaram a gravação, edição e promoção do álbum – é o chamado Supporters Project. Em troca, ganharam intimidade com o grupo (através de webcasts, por exemplo) e muitos brindes em forma de música exclusiva.

Em entrevista ao Bodyspace, Alexander Hacke abordou a importância de Alles wieder offen no contexto da evolução da banda e falou sobre o que mudou em Berlim nos últimos 30 anos e as potencialidades da Internet.

Tenho que começar pelo nome do disco, Alles wieder offen ("Tudo aberto de novo"). Parece atribuir uma carga especial a este disco, como se começassem de novo.

O conceito de algo aberto implica algumas coisas. Algo que está aberto ou que não está fechado, não está resolvido, nem terminado. Pode haver outra forma de o acabar. Algo que está aberto está desprotegido. Há formas diferentes de ler o título. É mais um estado de espírito e um sentimento do que uma descrição real da nossa situação.

Quando tudo está aberto há uma possibilidade ilimitada de opções e decisões a tomar. Isso pode ser uma coisa boa, mas também pode ser muito assustador. Não mudamos, continuamos a ser uma banda experimental. E quando se experimenta há sempre 50% de hipóteses de falhar.

Existe um conceito, tal como em Perpetuum Mobile, que era um disco focado no ar enquanto elemento natural?

É um disco auto-reflexivo. É sobre nós, sobre a nossa história – é a forma como eu o vejo, claro que pode haver outras leituras. É uma história de um grupo de indivíduos que passaram a maior parte das suas vidas juntos. Reflecte a história da banda, as opções que seguimos e o que o futuro pode trazer.

Isso nota-se nas canções. Vários temas citam ou evocam outros momentos de outras canções dispersas pela vossa discografia.

Tentámos criar pontes e justificar a existência deste grupo perante o mundo e nós mesmos. Nesta época, em que tudo é sobre lucro, crescer e andar mais rápido e ser mais eficaz, é importante parar e reflectir sobre o que andamos a criar, de facto. Os Neubauten foram, durante muitos anos, um monstro que andávamos a alimentar. Quando começas uma banda, encontras pessoas que aprecias e com quem decides começar a trabalhar. Mas mantém-se um grupo de indivíduos. Porém, quando se tem sucesso, a banda torna-se uma entidade, uma criatura de pleno direito e então ficas numa situação em que tens de manter a criatura viva. É geralmente esse a altura em que muitas bandas se separam, quando a pressão de trabalhar para a criatura se torna tão grande que te perdes a ti mesmo.

O Blixa Bargeld disse uma vez que cada disco dos Neubauten desapontava pessoas comparado com o anterior. Acredita que isso vai acontecer neste?

Não. É muito diverso, eclético e, por causa da sua natureza auto-reflexiva, tem elementos de várias fases da história da banda. Não acredito que alguém que goste da nossa música ou que a conheça fique desapontado. Claro que tudo o que fazemos vai desapontar pessoas que só ouviram falar de nós ou que ainda nos vêem como a banda que incendeia ou que faz buracos nos palcos.

Este disco foi financiado pelos fãs e editado pela própria banda. Como correu o Supporters Project?

Este disco foi o resultado da terceira fase do Supporters Project. Começamos o projecto em 2002. Na altura tivemos um disco na Mute Records [Perpetuum Mobile]. Nessa primeira fase, os apoiantes [supporters] tiveram o seu próprio disco com material que o comprador normal não teria. Na segunda fase (Grundstück) o resultado foi um CD e um DVD não disponíveis nas lojas. Na terceira fase, fizemos um disco para as lojas [Alles wieder offen] e produzimos a série Jewels – todos os meses, durante dois anos, púnhamos uma canção nova para download. Ainda fizemos oito discos na série Musterhaus. Ou seja, fizemos uns 10 álbuns em três anos.
Beneficiaram, talvez, do facto de não serem uma trivial banda pop, mas antes um grupo com uma legião de fãs dedicados.

A Net é um meio para pôr as pessoas em contacto. Descobrimos que podemos fazer isto com um nível de qualidade muito alto. As pessoas que nos apoiam não são o estereotipado fã de rock. Temos académicos e outras pessoas interessantes na comunidade que deixam mensagens interessantes no fórum. Descobrimos que ao ter uma referência comum – gostar de uma banda, neste caso – as pessoas são capazes de comunicar umas com as outras de uma maneira muito agradável e frutuosa. São só coisas boas.

Alguns dos apoiantes acabaram até a fazer primeiras partes do grupo.

Fizemos isso numa digressão. Descobrimos coisas muito interessantes. Foi muito divertido.

Como compara a Berlim de hoje com a cidade que viu nascer a banda, em 1980?

Nasci e fui educado numa cidade chamada Berlim Ocidental. Essa cidade já não existe, já lá não está. Não era bem uma cidade, era mais uma aldeia. E era uma ilha, desligada e separada do resto do mundo. Tinha uma pequena cena de criativos. Era muito fácil qualquer pessoa se integrar.

Neste momento, Berlim é a capital da Alemanha, temos aqui o governo, as grandes multinacionais. Por isso, a cidade tem exigências completamente diferentes do que antes: há muito mais exigências de segurança, não há espaços livres e não utilizados como antes; procura-se muito o dinheiro e ele chega através do turismo. E para ter turistas oferece-se um cenário muito seguro. Mas esta cidade vai ser capaz de viver durante 50 anos da sua reputação, mesmo que fechem todos os clubes de música e os estúdios de arte, até que as pessoas percebam que já não se passa nada aqui.

No início da banda diziam que o mundo ia acabar em 1984. Imagino como foi ver que, afinal, a Terra ainda tinha mais uns cartuchos para gastar.

Era um conceito mitológico. Foi muito natural ter essa maneira apocalíptica de ver o mundo. Ligava-se muito bem à forma como destruímos os nossos corpos e mentes na altura [risos].

Como é que foi começar a banda tendo esse cenário apocalíptico? Estimulava a urgência criativa?

Era uma projecção auto-suficiente que permitia justificar o nosso extremismo. Marcámos esse prazo [1984]. Mas não ficamos desiludidos por estarmos a trabalhar em 1985. Eu era adolescente… era muito radical nas minhas opiniões, no meu comportamento. Funcionava bem para mim.

Juntou-se à banda com 15 anos. Tinha conceitos de avant garde ou a sua abordagem foi menos intelectual do que isso?

Não, de todo. Saiu naturalmente. Inspirei-me na cena punk rock, talvez nos Ramones. Estava interessado em energia em bruto. Gostava de armar sarilhos. Comecei a interessar-me neste tipo de coisas e procurei pessoas com os mesmos interesses e que ouvissem música que os meus colegas de turma não gostassem. Estava sempre a procurar coisas mais extremas e estranhas.

Hoje as coisas são diferentes. Já não procuram a agressão contínua e sem tréguas. O título do disco, e também de uma canção, Silence is Sexy (2000) ainda parece manter-se como um lema para a banda.

Mesmo assim, a canção diz logo a seguir "Your silence is not sexy at all!". Hoje em dia, numa era em que há uma overdose de informação, a única forma de ter impacto e de chocar as pessoas é cortar esse fluxo constante de informação. Se, de repente, uma estação de rádio emitisse silêncio, se o canal de 24 horas fosse abaixo, isso é a coisa mais assustadora que pode acontecer – já não é o ruído, nem o conteúdo extremo. É quando se desligam as coisas que as pessoas se começam a preocupar.

27 anos depois, como vê a evolução da banda?

Educámo-nos a nós mesmos. Quando começámos não sabíamos como funcionava um estúdio, nem como tocar instrumentos. Claro que aprendemos a tocá-los – se não fosse assim estaríamos no emprego errado. Gosto sempre de comparar isto ao boxe: quando se começa a carreira enquanto pugilista, costuma-se ser muito explosivo, cheio de energia e agressão e muito bom no que se faz. Mas, quando se envelhece, não se pode manter essa quantidade de energia e a única coisa que se pode fazer é aprender como canalizar essa energia, como usar os murros com eficácia, no tempo e local correctos.

Tentamos sempre pesquisar todos os campos do processo criativo. Estamos sempre a tentar encontrar formas de escrever música de forma diferente, fazer arranjos inovadores, encontrar novos materiais e fontes sonoras para não nos limitarmos aos instrumentos que se podem comprar nas lojas.

Nos últimos anos, criaram um sistema de cartões que me faz lembrar um pouco o que o John Zorn faz no Cobra.

Chama-se Dave. É o nosso oráculo, o nosso sistema divino… Tem cerca de 600 cartões. O Blixa ouviu o nosso trabalho ao longo destes anos e foi tirando notas sobre as coisas mais significativas dessa canção (frequências baixas, etc.), todo o tipo de associações e conceitos. Os cartões dizem-nos o que fazer. [O sistema] Obriga-nos a tocar instrumentos diferentes e permite combinar ordens diferentes com o objectivo de chegar a um significado.

No álbum Jewels, cada canção era baseada no jogo Dave, no que Dave nos mandava fazer, e as letras baseiam-se em sonhos do Blixa. É uma forma de nos ligar à fonte da inspiração, de termos uma ligação mais directa ao poder divino da criatividade, seja lá o que isso for [risos].
Li que você é uma espécie de director musical da banda.

Isso aconteceu quando mudei para o baixo, quando saiu o Marc Chung [em 1994]. O baixo sempre foi a fundação harmónica dos Neubauten, por isso decidi mudar-me para o baixo. Tive que ensinar o novo guitarrista como tocar harmonicamente a música do passado dos Neubauten. Envolvi-me mais na fundação da música. Faço o que faço porque sou bom nisto. Sinto que sou capaz de ajudar outros membros da banda.

O que vão fazer agora? O Supporters Project vai continuar?

Vamos suspender agora com a terceira fase. Até aqui, sempre que uma subscrição terminava começava outra. Não vamos fazer isso. Trabalhámos muito no último ano. Vamos em digressão para promover este disco e depois descansar - os membros dos Neubauten trabalham noutros projectos e trabalhos. Sempre foi assim e sempre será. Se os Neubauten fossem o nosso único veículo criativo não estávamos a fazer isto ainda.

Participou, por exemplo, em várias bandas sonoras e foi protagonista num documentário sobre a música de Istambul. Precisa de ter estes veículos paralelos aos Neubauten?

Em primeiro lugar, é uma necessidade económica [risos]. Seria impossível sobreviver só com os Neubauten. Mas é também uma necessidade artística, porque há música que só posso tocar com os Neubauten, mas há também outras coisas que quero tocar e que não cabem nos Neubauten. Todos os músicos dos Neubauten têm projectos paralelos pelas mesmas razões. Isto alimenta a banda com novas ideias

Aproveita muitas viagens para trabalhar nos seus projectos. Andar de headphones permite-lhe abstrair-se das viagens?

Não, eu gosto de estar muito atento a tudo. Hoje em dia toda a gente em Berlim anda de headphones no metro. É uma coisa individualista. Venho de uma geração em que tínhamos boomboxes [equipamentos portáteis com grande potência]. Só faço trabalhos sonoros nos aeroportos. Quando estou a voar gosto de trabalhar no meu computador. Noutras situações, prefiro estar alerta. Não me quero separar do mundo audível à minha volta. Felizmente, hoje há muitas tecnologias que permitem trabalhar rapidamente, gravar com velocidade e qualidade.

É incrível como, tantos anos depois, essa vossa reputação ainda não desapareceu.

Pode levar segundos a construir uma reputação e anos - ou talvez uma eternidade - a construir outra [risos].

Pedro Rios

Alexander Hacke (baixista do Neubauten em entrevista/out 2007)

terça-feira, 13 de abril de 2010

sexta-feira, 9 de abril de 2010

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Marcel Duchamp, Mile of String

In 1942, Andre Breton organised a retrospective exhibition of Surrealist art in New York: First Papers of Surrealism. For the vernissage Marcel Duchamp created this installation – a gigantic web – called the Mile of String. He and Breton furthermore arranged for a number of children to ball in the room thereby making it very difficult for the guests to see the paintings


terça-feira, 6 de abril de 2010

arriscar o impossível

ZIZEK, Slavoj e DALY, Glyn. Arriscar o impossível: conversas com Zizek. Trad. Vera Ribeiro. São Paulo: Martins fontes, 2006. (Coleção Dialética).

"Não é por acaso que Zizek chega ao fim do seu livro, referindo-se à ética da
psicanálise: “É preciso arriscar e decidir. É essa a lição de Lacan. Não ceda em seu desejo. Não busque apoio em nenhuma forma de Outro maiúsculo — mesmo que esse Outro maiúsculo seja totalmente vazio, ou seja uma injunção incondicional levinasiana.

É preciso arriscar o ato sem garantias. Nesse sentido, o fundamento supremo da ética é político. E, para Lacan, a ética despolitizada é uma traição ética, porque se põe a culpa no Outro. A ética despolitizada significa que você confia em alguma imagem do grande Outro. Mas o ato lacaniano é, precisamente, o ato em que você presume que não existe grande Outro” (p.201). (…) Ou seja, em certo momento, é preciso assumir a responsabilidade pelo ato” (p. 203)".

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Falando poesia

Hora Grave

Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.

Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.

Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.

(Rilke)

sábado, 3 de abril de 2010

Torno a perder a noção das coisas

É tarde, tarde.
Sinto os frutos amuderecem nas mãos.
Tu me deixaste só com meu aquário de incertezas.
Os dedos vão passando pelas pérolas deste colar do tempo.
O tempo de outrora já ficaste na esfera anterior.
Carrego todas em meu pescoço, na garganta, nos olhos.
Tu ficaste em uma delas à qual vou me esquecendo.
Guardo um amor de pérola em um colar de memória.
Sinto muito. Sinto uma dor clara como a brisa.
É tarde e sinto tua falta, minha jovem.
Há alguém que salve para mim? Para ti?
Devo voltar-me às minhas convicções,
aos propósitos deste mundo?
Qual acaso mudará essa gravitação?
Qual correspondência?
Qual encontro?
Quem?
O quê?
Uma brevidade,
um adeus,
uma travessia,
e estou só,
mais uma vez.
Mais triste,
e com mais ou menos vida.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Spiritual Voices

"O vestígio anuncia o tempo que fará".

um beijo para Emily Dickinson

Noites Loucas — Noites Loucas!

Estivesse eu contigo
Noites Loucas seriam
Nosso luxuoso abrigo!

Para Coração em porto —
Ventos — são coisas fúteis —
Bússolas — dispensáveis —
Portulanos — inúteis!

Navegando em pleno Éden —
Ah, o Mar!
Quem dera — esta Noite — em Ti
Ancorar!

O tom maior de Bach: Concertos de Brandemburgo nº 1







O

quarta-feira, 31 de março de 2010

A MORTE

A morte é uma flor que só abre uma vez.
Mas quando abre, nada se abre com ela.
Abre sempre que quer, e fora de estação.

E vem, grande mariposa, adornando caules ondulantes.
Deixa-me ser o caule forte da sua alegria.
RETRATO DE UMA SOMBRA

Os teus olhos, rasto de luz dos meus passos;
a tua testa, lavrada pelo brilho dos punhais;
as tuas sobrancelhas, orla do caminho da tragédia;
as tuas pestanas, mensageiros de longas cartas;
os teus cabelos, corvos, corvos, corvos;
as tuas faces, campo de armas da madrugada;
os teus lábios, hóspedes tardios;
os teus ombros, estátua do esquecimento;
os teus seios, amigos das minhas serpentes;
os teus braços, álamos à porta do castelo;
as tuas mãos, tábuas de juras mortas;
as tuas ancas, pão e esperança;
o teu sexo, lei do fogo na floresta;
as tuas coxas, asas no abismo;
os teus joelhos, máscaras da tua altivez;
os teus pés, campo de batalha dos pensamentos;
as tuas solas, criptas em chamas;
as tuas pegadas, olho da nossa despedida.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Marianne Moore, no dia das mulheres

POESIA
Também não gosto.
Lendo-a, no entanto, com total desprezo,
a gente acaba descobrindo
nela, afinal de contas, um lugar para o genuíno.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

domingo, 7 de fevereiro de 2010

sair para ver

Sentir sempre uma chama violenta, manter esse êxtase, é o sucesso na vida... Enquanto tudo se funde sob nossos pés, ainda podemos recuperar o perdido através de uma paixão diferente, ou qualquer outra contribuição que pareça ser um novo horizonte para a liberdade do nosso espírito, ou uma exaltação dos sentidos, cores estranhas e odores curiosos, ou o trabalho dos artistas, ou o rosto de um amigo... Com todo esse sentido do esplêndor de nossa experiência e sua terrível e breve duração, abrangendo tudo que em nosso desesperado esfôrço queremos ver e tocar, dificilmente teremos tempo para formular teorias sobre o que vemos ou tocamos. O que nos resta é permanecer para sempre ouvindo, curiosamente, novas opiniões e colhendo novas impressões.