quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Buenas noches, Che bandoneón


No fim dos anos 70, em Paris, o grande bandoneonista argentino Juan José Mosalini convidou Julio Cortázar para uma pequena participação em seu disco solo. O resultado desse encontro foi um texto curto para a primeira faixa do disco, escrito e gravado na voz do próprio escritor entitulado: "Buenas noches, che bandoneón" 

Texto escrito por Julio Cortázar em 1979:

La alianza del bandoneón y el tango nace com nuestro siglo y tiene por escenario la ciudad de Buenos Aires. Instrumento destinado a otros fines musicales en su Alemania natal, el “fuelle” como lo llaman gráficamente los argentinos, se adapto sin el menor esfurzo a una música que hasta entonces se tocaba con otros instrumentos.

Lo más admirable es que a su vez el tango se reconoció por así decirlo en el bandoneón. Em su sonido inconfuntible y sus posibilidades instrumentales, y muy pronto hubo entre ellos una intimidad que jamás se interrumpió que sigue dando una música como la que contiene este disco.

Esa alianza entrañable se tradujo desde el principio por um diálogo que no solamente concernia a la música sino a lãs palabras de los tangos. Los poetas populares comprendieron muy pronto que ele bandoneón contenía la esencia del tango, como tan bien La resumió Julian-Centeya:

Bandoneón castigado, taciturno y doliente,
Voz quejosa y antigua del farol parpadeante...  

Todo está dicho aqui em dos versos: el “fuelle” condensa lãs nociones de miséria, de melancolia y de dolor de La vida del subúrbio porteño, visto bajo La luz mortecina de los faroles callejeros. Numerosos son los tangos donde el que canta se dirige al bandoneón como a um interlocutor o confidente, estrechando aún más la relación entre música y instrumento. 


Así, cuando se trata de las tristes heroínas de los cabarets porteños, cuya efímera gloria termina siempre em el hopsital y el abandono, se dice de ellas que se apagaron bajo “ el arrullo funeral del bandoneón” (Griseta). En las horas del triunfo o de la desolación, el “fuelle” está siempre ahí porque, como lo definió admirablemente Cátulo Castillo, es para nosostros “un corazón que suena”. Poco a poco, de fragmentos múltiples que, cuando tiene ganas de sonar bien, cuando es tocado por alguien que merece tenerlo entre las manos, vale por toda una orquestra y le da al tango su más alta belleza.

Cosas así explican que los argentinos nos sintamos tan identificados com el bandoneón, y que hablemos como se habla aqui, diciendole familiarmente:

Buenos noches, che bandoneón, qué Bueno verte bien y en tan buenas manos...

No se me ponga modesto, Don fuelle; hágame escuchar suas músicas mientras yo lo acompaño com vino y tabaco y tantas nostalgias, todo eso que lleva los muchos nombres que usté tiene, porque usté se llama Ciriaco Ortiz, se llama Federico, se llama Laurenz, se llamma Piazzolla, se llama Pichuco, se llama tantos otros, y esta noche se llama Juan José Mosalini. Ya ve si lo conozco; respire a fondo y déle, cuénteme de ese Buenos Aires tan lejano ahora para mi, cuénteme de mi propia vida de pibe y de muchacho...

Y gracias, Che bandoneón

Julio Cortázar.


domingo, 21 de agosto de 2011

O HOMEM-ÁRVORE


Na obra literária de Artaud há muitas referencias ao homem-árvore esse que preserva a consciência sobrenatural das primeiras idades do mundo, ainda não pervertida pela Sociedade, não dissolvida nas funções rasteiras de um organismo. Mas o homem-árvore subsiste mal no mundo de hoje, é imolado pelas inquisições.

Quando Artaud fala do Van Gogh que a Sociedade suicida, não pode deixar de ver-lhe a árvore atacada, na sua pureza, por instrumentos negros e corruptores: a Sociedade apagou-lhe a consciência sobrenatural que ele acabava de ganhar e, como se fora uma inundação de corvos negros das fibras de sua árvore interna, submergiu-o num ataque repentino e tomando-lhe o lugar, matou-o.
Nada melhor do que o homem-árvore para servir a uma reflexão final sobre o destino da humanidade. E Artaud condena-a por traição ao primeiro homem sem órgãos nem função mas de vontade que anda, anterior a este que se vê intacto de aparência mas evoluído internamente para um organismo sem dor própria. Ao homem de nervos elétricos sucedeu outro sem produção mágica e condenado às misérias do organismo e de mundo com supremacia da ordem do lucro e de instituições burguesas.

O HOMEM-ÁRVORE
(Carta a Pierre Loeb)

Antonin Artaud

O tempo em que o homem era uma árvore sem órgãos nem função,
mas de vontade
e árvore de vontade que anda,
voltará.
Existiu, e voltará.
Porque a grande mentira foi fazer do homem um organismo,
ingestão, assimilação,
incubação, excreção,
o que existia criou toda uma ordem de funções latentes e que escapam
ao domínio da vontade decisora,
a vontade que em cada instante decide de si;
porque assim era a árvore humana que anda,
uma vontade que decide a cada instante de si,
sem funções ocultas, subjacentes, que o inconsciente rege.
Do que somos e queremos na verdade pouco resta,
um pó ínfimo sobrenada, e o resto, Pierre Loeb, o que é?
Um organismo de engolir, pesado na sua carne,
e que defeca e em cujo campo,
como um irisado distante,
um arco-íris de reconciliação com deus,
sobrenadam,
nadam os átomos perdidos,
as idéias, acidentes e acasos no total de um corpo inteiro.
Quem foi Baudelaire?
Quem foram Edgar Poe, Nietzsche, Gérard de Nerval?
Corpos que comeram, digeriram, dormiram,
ressonaram uma vez por noite,
cagaram entre 25 e 30 000 vezes,
e em face de 30 ou 40 000 refeições,
40 mil sonos, 40 mil roncos,
40 mil bocas acres e azedas ao despertar,
tem cada qual de apresentar 50 poemas,
o que realmente não é de mais,
e o equilíbrio entre a produção mágica e a produção automática
está muito longe de ser mantido,
está todo ele desfeito,
mas a realidade humana, Pierre Loeb, não é isto.
Nós somos os 50 poemas,
o resto não somos nós,
mas o nada que nos veste, se ri, para começar, de nós.
Um organismo de engolir vive de nós a seguir.
Ora, este nada nada é,
não é qualquer coisa mas alguns.
Quero dizer alguns homens.
Animais sem vontade nem pensamento próprio,
ou seja, sem dor própria,
que em si não aceitam vontade de uma dor própria
e para forma de viver mais não encontraram que falsificar a humanidade.
E da árvore-corpo, mas vontade pura que éramos,
fizeram este alambique de merda,
esta barrica de destilação fecal,
causa de peste e de todas as doenças
e deste lado de híbrida fraqueza,
de tara congênita, que caracteriza o homem nato.
Um dia o homem era virulento,
só era nervos elétricos,
chamas de um fósforo perpetuamente aceso,
mas isto passou à fábula porque os animais lá nasceram,
os animais, essas deficiências de um magnetismo inato,
essa cova de oco entre dois foles de força
que não eram, eram nada e passaram a ser qualquer coisa,
e a vida mágica do homem caiu,
caiu do seu rochedo com ímã
e a inspiração que era o fundo
passou a ser o acaso, o acidente, a raridade, a excelência,
talvez excelência
mas à frente de um tal acervo de horrores,
que mais valia nunca ter nascido.
Não era o estado de paraíso,
era o estado-manobra, - operário,
o trabalho sem rebarbas, sem perdas,
numa indescritível raridade.
Mas esse estado por que não continuou?
Pelas razões que levam o organismo de animal,
que foi feito para e por animais
e desde há séculos lhe aconteceu, a explodir.
Exatamente pelas mesmas razões.
Mais fatais umas do que outras.
Mais fatal a explosão do organismo dos animais
que a do trabalho único
no esforço dessa vontade única
e muito impossível de encontrar.
Porque realmente o homem-árvore,
o homem sem função nem órgãos que lhe justifiquem a humanidade,
esse homem prosseguiu sob a capa do ilusório do outro,
a capa ilusória do outro,
prosseguiu na sua vontade mas oculta,
sem compromissos nem contacto com o outro.
E quem caiu foi quem quis cercá-lo e imitá-lo
mas logo depois com muita força,
estilo bomba,
irá revelar a sua inanidade.
Porque devia criar-se um crivo
entre o primeiro dos homens-árvores
e os outros,
mas aos outros foi preciso o tempo,
séculos de tempo
para os homens que tinham começado
ganharem o seu corpo
como aquele que não começou
e não parou de ganhar o seu corpo mas no vazio,
e não havia lá ninguém,
e lá não havia começo.
E então?
Então.
Então as deficiências nasceram
entre o homem e o labor árido que era bloquear também o nada.
Em breve esse trabalho será concluído.
E a carapaça terá de ceder.
A carapaça do mundo presente.
Levantada sobre as mutilações digestivas
de um corpo esquartelado em dez mil guerras
e pela dor, e a doença, e a miséria,
e a penúria de gêneros, objetos e substâncias de primeira necessidade.
Os que sustentam a ordem do lucro
das instituições sociais e burguesas,
que nunca trabalharam
mas grão a grão amealharam o bem roubado
desde há bilhões de anos
e conservado em certas cavernas de forças
defendidas pela humanidade inteira,
com algumas tantas exceções
vão ver-se obrigados a gastar as energias
nessa coisa que é combater,
vão lá poder deixar de combater,
pois no fim da guerra e esta agora, apocalíptica,
que há-de vir,
está a sua cremação eterna.
Por isto mesmo eu julgo
que o conflito entre a América e a Rússia,
reforçado ele seja a bombas atômicas,
pouco vai ser
ao lado e em face do outro conflito
que vai repentinamente estalar
entre quem preserva uma digestiva humanidade, por um lado,
e por outro o homem de vontade pura
e os seus muito raros aderentes e sequazes mas com a sempiterna força por si.

*ARTAUD, Antonin. Eu, Antonin Artaud. Lisboa: Hiena Editora, 1988, p. 105-110.



sábado, 20 de agosto de 2011

Dança dos Cavaleiros



 Penso nesse tema "Montéquios e Capuletos". Os soberanos do passado e de sempre.Penso nas oligarquias guerreiras que sempre competiram entre si, que nos governaram por séculos e que ainda nos governarão com máscaras renovadas de tirania. Penso na tragédia de Romeu e Julieta. O tema shakespeariano de que os indivíduos, suas razões, seus afetos e desejos se tornam secundários à pertença a um grupo específico. Penso nessa questão dramática:  a de que as ações e o discurso de cada uma das personagens são avaliados não por seu valor intrínseco, mas como manifestação de um outro a quem é compulsório rejeitar.

lembro de uma frase de Andrei Tarkovski:

"A arte é, por natureza, aristocrática e seletiva em seus efeitos sobre o público…."

E continuo com ele:

"No entanto, a natureza aristocrática da arte de forma alguma exime o artista da responsabilidade para com seu público e até mesmo, se assim preferirem, para com as pessoas em geral. Pelo contrário: a função da consciência especial que tem do seu tempo e do mundo em que vive, o artista torna-se a voz daqueles que não podem expressar sua concepção da realidade. Nesse sentido, o artista é realmente vox populi. Esta é a razão pela qual ele é chamado a contribuir com seu talento, o que significa servir ao seu povo….A arte, como afirmei anteriormente, atinge as emoções de uma pessoa, não sua razão…Assim que se começa a atender ao gosto popular, o que entra em jogo é a indústria de diversões, o show business, as massas e coisas do gênero, mas nunca a arte, que necessariamente obedece as suas leis imanentes de desenvolvimento, queiramos ou não…. O verdadeiro diálogo entre diretor e o espectador só é possível quando ambos têm o mesmo grau de compreensão dos problemas, ou, pelo menos, quando a abordagem dos objetivos que o diretor se auto impôs ocorre num mesmo nível."

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

"How small a thought it takes to fill a whole life!" Wittgenstein

“Como um pequeno pensamento basta para preencher toda uma vida!”


domingo, 14 de agosto de 2011

Lugar IV

Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.

Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde
uma paxão bárbara, um amor.
Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
o minha loucura, escada
sobre escada.

MuIheres que eu amo com um des-
espero fulminante, a quem beijo os pés
supostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror,
com alegria. Em que toco levemente
levemente a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces
e formidáveis no espaço, dentro
de ténues pérolas.

Que racham a luz de alto a baixo
e criam uma insondável ilusão.
Dentro de minha idade, desde
a treva, de crime em crime – espero
a felicidade de loucas delicadas
mulheres.
Uma cidade voltada para dentro
do génio, aberta como uma boca
em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.

Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus.
É a vida futura tocando o sangue
de um amargo delírio.
Olho de cima a beleza genial
das suas cabeças
ardentes: – E as altas cidades desenvolvem-se
no meu pensamento quente.

(Herberto Helder)

sábado, 13 de agosto de 2011

EN MODO DE DANZA

Constantemente decían:

“Nosotros y tú
Estamos aquí
Somos de aquí
Pertenecemos
Nos convivimos.”

El punteo harmonioso
De las hojas
De los álamos
Danzando al viento

Y nuestra vida
Era sólo huir

¡Sólo huir!

“Nosotros y tú
Estamos aquí
Somos de aquí
Pertenecemos
Nos convivimos”

(R. Daluisio)

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Três preceitos fundamentais na criação artística segundo Alexander Sokurov:

1º Contar apenas consigo mesmo

2º Ser paciente

3º Trabalhar em todas as condições possíveis - ruins, desfavoráveis - e não se importar com as reações a seu trabalho.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Samuel Beckett, vem e vai

A nova geração: Per Arne Glorvigen

Natural da Noruega, Per Arne Glorvigen, formou-se em música e então descobriu bandoneón. Estudou na França com um dos mestres no instrumento, da geração pós Piazzolla: Juan José Mosalini.





quarta-feira, 13 de julho de 2011

TANTAS CONSTELAÇÕES que nos
são oferecidas. Quando
eu te vi  - quando? -,
eu estava
em outros mundos.

Estas vias, galácticas,
esta hora que
estendeu as noites à
carga dos nossos nomes.
Sei, eu sei que não é verdade
que estivéssemos vivos, tão somente
um alento é que cego andava
lá e não-aí, e às vezes
um olho sibilava feito um cometa
até o extinto, nos abismos,
 e lá onde isso ardia estava
Cronos coroado,
no qual concrescia, transcrescia
subscrescia, excrescia tudo o que
é ou foi ou será - ,

sei,
eu sei e tu sabes, nós sabíamos
não sabíamos não, nós
estávamos bem aí e não lá,
e, as vezes, quando
apenas o Nada estava entre nós,
nós nos encontrávamos plenamente.

sábado, 9 de julho de 2011

" um outro mundo melhor na barriga deste mundo de merda"



Depoimento de Eduardo Galeano na praça Catalunya, 24/05/11.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

FIAPOSSÓIS

as cabeças, monstruosas, e a cidade
que elas constroem, em busca da
felicidade

Se ainda uma vez, a ti fiel, fosses a minha dor,
e um lábio passasse por perto, do lado de cá, neste
lugar onde ando além de mim mesmo,

eu te levaria
por esta estrada
em frente.

(...) no caso de Celan as suas dúvidas, inquietudes, dilemas, levaram-no realmente a uma poesia visceral, contribuindo talvez para literalmente destruí-lo. Afinal, o seu suicídio, em 1970, certamente que em parte deve ter sido provocado ...pela sua incapacidade de crer numa possibilidade de redenção para a humanidade, para a história e para a própria condição humana.


Celan não logrou ou não quis essa crença, fosse através da ação política, da beleza artística ou mesmo da apreensão do sagrado, do divino que há na história e no mundo, e que nos cabe desvelar e mesmo ajudar a construir, cada um da forma que puder.

O poeta não conseguiu acreditar que seria possível para o poeta resistir ao mal e ao erro espalhado no mundo pelas ‘cabeças monstruosas’; não vislumbrou que é possível e necessário, não somente ao poeta mas a qualquer indivíduo, contribuir para extirpar do mundo as condições sociais objetivas que sustentam essas ‘cabeças monstruosas’, mesmo que essa vitória não se dê ao longo de nosso breve tempo de vida.

PARTITURA DE NEVE

ILEGIBILIDADE deste
mundo. Tudo duplo.

Os relógios poderosos
dão razão à hora físsil
roucos

Tu, encalacrado em teu âmago
te apeias de ti
para sempre.

Cão Maior

"os cães gerais ladram às luas que lavram pelos desertos fora, mas a gota de água treme e brilha, não uses as unhas senão nas linhas mais puras, e a grande Constelação do Cão galga através da noite do mundo cheia de ar e de areia e de fogo, e não interrompe ministério nenhum nem nenhum elemento, e tu guarda para a escrita a estrita gota de água imarcescível contra a turva sede da matilha, com tua linha limpa cruzas cactos, escorpiões, árduos buracos negros: queres apenas aquela gota viva entre as unhas, enquanto em torno sob as luas os cães cheiram os cus uns aos outros à procura do ouro"

Herberto Helder

(publicado em 07 de maio de 2011 no jornal "O Público" de Portugal)

sexta-feira, 1 de julho de 2011

quando a verdade e beleza se encontram

um poema de Emily Dickinson

Morri pela beleza – e assim que no Jazigo
Meu Corpo foi fechado,
Um outro Morto foi depositado
Num Túmulo contíguo –

“Por que morreu?” murmurou sua voz.
“Pela Beleza” – retruquei –
“Pois eu – pela Verdade – É o mesmo. Nós
Somos Irmãos. É uma só lei” –

E assim Parentes pela Noite, sábios –
Conversamos a Sós –
Até que o Musgo encobriu nossos lábios –
E – nomes – logo após –

(Em "Não sou ninguém" - seleção e tradução de Augusto de Campos)

terça-feira, 14 de junho de 2011

FURORES ABSTRATOS

"Eu, naquele inverno, estava tomado de furores abstratos. Não direi quais, não é isso que me proponho a contar. Mas é preciso dizer que eram abstratos, nada heróicos, nem vivos; de qualquer maneira, furores pelo gênero humano perdido. Vinha assim há muito tempo, e andava cabisbaixo. Via manchetes nos jornais sensacionalistas e abaixava a cabeça; estava com os amigos, uma hora, duas horas, e ficava com eles sem abrir a boca; abaixava a cabeça; e tinha uma moça ou uma mulher que me esperava, mas nem com ela eu trocava uma palavra, mesmo com ela eu abaixava a cabeça. Chovia o tempo todo, passavam-se os dias, os meses, e eu tinha os sapatos furados, a água me entrando nos sapatos, e não era mais nada que isso: chuva, carnificinas nas manchetes dos jornais, e água nos meus sapatos furados, amigos mudos, a vida em mim como um sonho surdo, e não-esperança, calmaria. Isso era terrível: a calmaria na não-esperança. Dar o gênero humano como perdido e não ter vontade de fazer coisa alguma quanto a isso, nem vontade de me perder, por exemplo, com ele. Eu estava perturbado por furores abstratos, não no sangue, e ficava quieto, sem vontade de nada. Não importava que minha namorada estivesse me esperando, estar com ela ou não, ou folhear o dicionário, era para mim a mesma coisa; e sair para ver os amigos, ou ficar em casa, era o mesmo para mim. Estava quieto; como se nunca tivesse tido um dia de vida, nem jamais soubesse o que é ser feliz, como se nada tivesse a dizer, a afirmar, a negar, nada de meu para pôr em jogo, nada a escutar, a dar, e nenhuma disposição de ganhar, como se em todos os anos de minha vida nunca tivesse comido pão, bebido vinho, ou tomado café, nunca tivesse estado na cama com uma mulher, nunca tivesse tido filhos, nunca tivesse brigado a socos com alguém, ou não achasse tudo isso possível, como se eu nunca tivesse tido uma infância na Sicília, entre os figos-da-índia e o enxofre das minas, nas montanhas; mas, dentro de mim, eu me agitava com os furores abstratos, e pensava sobre o gênero humano perdido, abaixava a cabeça, e chovia, não dizia uma só palavra aos amigos, e a água me entrava nos sapatos."
(Elio Vittorini; Conversa na Sicília)

quarta-feira, 1 de junho de 2011

mulher, Uma Recordação

Não há homem que consiga deixar uma marca
nela. Todo o passado se dilui num sonho
como uma rua na manhã e só fica ela.
Se não fosse a testa franzida por um momento
pareceria atónita. As maçãs do rosto têm sempre
um sorriso.

                   Também não se acumulam os dias
no seu rosto, nem alteram o sorriso leve
que irradia sobre todas as coisas. Com uma firmeza dura
faz cada coisa como se fosse a primeira;
no entanto vive-a até ao último momento. O seu corpo
firme abre-se, o olhar recolhido,
a uma voz doce e algo rouca: à voz
dum homem cansado. E nenhum cansaço a toca.

Quando se lhe olha para a boca, semicerra os olhos
à espera: ninguém se arriscaria.
Muitos homens conhecem o seu ambíguo sorriso
ou a súbita ruga. Se homem existiu
que a soube queixosa, humilhada de amor,
paga dia após dia, ignorando dela
por quem vive hoje.

                                  Caminhando pela rua
sorri sozinha o sorriso mais ambíguo.

Cesare Pavese, in 'Trabalhar Cansa'

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Cap au pire

O melhor mínimo. Não. Nada de melhor. O melhor pior. Não. Não o melhor pior. Nada de melhor pior. Menos que melhor pior. Não. O menos. O menos melhor pior. O mínimo nunca pode ser nada. Nunca ao nada pode ser reconduzido. Nunca pelo nada anulado. Não anulável menor. Dizer esse melhor pior. Com palavras que reduzem dizer o mínimo melhor pior.


tout au plus le minime minimun. L’iminimisable minime minimum

terça-feira, 10 de maio de 2011

Pioravante marche


Aquilo levanta-se.
O quê?
Sim.
Dizer que se levanta e fica de pé.
Teve de se levantar por fim e ficar de pé.
Dizer ossos.
Ossos nenhuns mas dizer ossos.
Dizer chão.
Chão nenhum mas dizer chão.
De modo a dizer dor.
M ente nenhuma e haver dor?
Dizer que sim que os ossos podem doer até não haver alternativa senão levantar.
De algum modo levantar e ficar de pé.
Ou melhor pior restos.
Dizer restos de mente onde nenhuns para permitir a dor.
Dor dos ossos até não haver alternativa senão levantar e ficar de pé.
De algum modo levantar.
De algum modo ficar de pé.
Restos de mente onde nenhuns só para a dor poder haver.
Aqui dos ossos.
Outros exemplos se preciso for.
De dor.
Alívio de.
Mudança de.

Tudo desde sempre.
Nunca outra coisa.
Mas nunca tão falhada.
Pior falhada.
Com cuidado nunca pior falhada.

Luz obscura origem desconhecida.
Sabe-se o mínimo.
Não não se saber nada.
Seria esperar de mais.
Quando muito o mínimo dos mínimos.
Maximamente menos que o mínimo dos mínimos.

Não haver alternativa senão ficar de pé.
De algum modo levantar e ficar de pé.
De algum modo ficar de pé.
Ou isso ou gemer.
O gemido que de longe tão longo vem.
Não.
Gemido nenhum.
Dor simplesmente.
Levantado simplesmente.
Um tempo para tentar como.
Tentar ver.
Tentar dizer.
Como a princípio esteve deitado.
Depois de algum modo se ajoelhou.
Pouco a pouco.
E em diante a partir daí.
Pouco a pouco.
Até se levantar por fim.
Não agora.
Agora falhar melhor pior.

Um outro.
Dizer um outro.
Cabeça afundada em mãos paralisadas.
Vértice vertical.
Olhos cerrados.
Sede de tudo.
Embrionária de tudo.

Isto não tem futuro.
Infelizmente tem.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

para uma amiga que partiu

















Longa viagem

Não pude conter alegria que me tinha trazido
a manhã de ontem...
E não posso enxotar a tristeza que traz
a manhã de hoje.

Pássaros migratórios atravessam o céu.
Lutam contra o vento do outono...
Encho a minha taça e olho para longe.

Penso nos grandes poetas que já não vivem,
recordo seus versos,
e digo a mim mesmo
que eu também seria capaz de escrever poemas sublimes
se pudesse pairar no céu, entre os astros.

Em vão bebo para afogar minha amargura.
Neste mundo, quando as coisas não correm como desejamos,
deve-se, como, tu, tomar uma barca, de cabelos ao vento,
e seguir pelo mar...

Li Tai Po
China. Dinastia Thang (Séc. VIII)

sábado, 30 de abril de 2011

O Mesmo e o Diverso (por Edouard Glissant)

Consideramos os avatares da história contemporânea como episódios desapercebidos de uma grande mudança civilizacional, que é passagem: do universo transcendental ao Mesmo, imposto de maneira fecunda pelo Ocidente, ao conjunto difratado do Diverso, conquistado de modo não menos fecundo pelos povos que conquistaram hoje seu direito à presença no mundo. O Mesmo, que não é uniforme nem estéril, pontua o esforço do espírito humano em direção a essa transcendência de um humanismo universal sublimando os particulares (nacionais). A relação dialética de oposição e de ultrapassagem compreendeu, na história ocidental, o nacional como obstáculo privilegiado, que era preciso conquistar ou vencer. Neste contexto, o indivíduo, considerado como veículo absoluto da transcendência, pôde afirmar de maneira subversiva seu direito a contestar o acidente particular, embora nele se apoiando. Mas, para nutrir sua pretensão ao universal, o Mesmo requisitou (teve necessidade de) a carne do mundo. O outro é sua tentação. Não ainda o outro como projeto de acordo, mas o outro como matéria a sublimar. Os povos do mundo foram então presa da cobiça ocidental, antes de encontrarem o objeto das projeções afetivas ou sublimantes do Ocidente.

O Diverso, que não é o caótico nem o estéril, significa o esforço do espírito humano em direção a uma relação transversal, sem transcendência universalista. O Diverso tem necessidade da presença dos povos, não mais como objeto a sublimar, mas como projeto a por em relação.O Mesmo requer o Ser, o Diverso estabelece a Relação. Como o Mesmo começou pela rapina expansionista no Ocidente, o Diverso nasceu através da violência política e armada dos povos. Como o Mesmo se eleva no êxtase dos indivíduos, o Diverso se expande pelo ela das comunidades. Como o Outro é a tentação do Mesmo, o Todo é a exigência do Diverso. Não é possível nos tornarmos trinidadianos ou quebequenses, se nós não o formos; mais é, contudo, verdadeiro que se Trinidad ou Quebec não existissem como componentes aceitos do Diverso, faltaria algo à carne do mundo - e hoje nós conhecemos esta falta. Dito de outra forma, se era desejável que o Mesmo se revelasse na solitude do SER, permanece imperioso que o Diverso passe pela totalidade dos povos e das comunidades.

O Mesmo é a diferença sublimada; o Diverso é a diferença consentida. Se não retivermos os aspectos fundamentais desta passagem (do Mesmo ao Diverso) que são a luta política, a sobrevida econômica, e se não contabilizarmos os episódios centrais (esmagamento dos povos, emigrações, deportações, talvez o mais grave dos avatares que é a assimilação), e se nos mantivermos em uma visão global, perceberemos que o Mesmo, imaginário do Ocidente, conheceu um enriquecimento progressivo, um estabelecimento harmonioso do mundo, como pôde "passar", sem ter que confessar, da idéia platônica à nave lunar. Os conflitos nacionais marcaram do interior o clã do Ocidente para uma única ambição, que era impor ao mundo como valor universal o conjunto de seus valores particulares. É assim que o slogan circunstanciado da burguesia francesa de 1789, "Liberdade, Igualdade, fraternidade", tendeu durante muito tempo a significar de maneira absoluta um dos fundamentos do humanismo universal. O mais belo sendo o que efetivamente ele significou. Foi ainda assim que o positivismo de Augusto Comte tornou-se realmente uma religião na América do Sul para uma elite "descentrada".

O que se chama em toda parte a aceleração da história, que provem da saturação do mesmo, como de uma água que transborda de seu continente desbloqueou em toda parte a exigência do Diverso. Esta aceleração, levada pelas lutas políticas, fez com que os povos que ainda ontem povoavam a face escondida da terra ( como houve durante muito tempo uma face escondida da lua) tiveram que nomear-se diante do mundo totalizado. Se não se nomeassem, amputariam o mundo de uma parte de si mesmo. Esta nomeação assume formas trágicas (guerra do Vietnam, esmagamento dos palestinos, massacres na África do Sul), mas passa também pelas expressões político-culturais: salvamento dos contos tradicionais africanos, poemas engajados dos militantes, literatura oral (oralitura) do Haiti, consenso difícil dos intelectuais antilhanos, revolução tranqüila no Quebec. (Sem contar os avatares insuportáveis: "impérios" africanos, "regimes" sul americanos, auto-genocídios na Ásia, dos quais poderíamos pensar que eles constituem o "negativo" - que não pode ser possuído - de um movimento planetário). Chamo de literatura nacional esta urgência para cada um de nomearse diante do mundo, isto é, esta necessidade de não desaparecer da cena do mundo e de contribuir, ao contrário, à sua ampliação.

Consideremos a obra literária em seu alcance mais amplo; podemos convencionar que ela satisfaz a dois usos: existe função de dessacralização, de heresia, de análise intelectual, que consiste em desmontar as engrenagens de um sistema dado, em pôr a nu os mecanismos escondidos, em desmistificar. Mas existe também função de sacralização, função de agrupamento da comunidade em torno de seus mitos, de suas crenças, de seu imaginário ou de sua ideologia. Digamos, parodiando Hegel e seu discurso sobre o épico e a consciência comunitária, que a função de sacralização seria o fato de uma consciência coletiva ainda ingênua, e que a função de dessacralização é o fato de um pensamento politizado. O problema contemporâneo das literaturas nacionais, tais como as concebo aqui, é que elas devem aliar o mito à sua desmitificação, e a inocência primeira à inteligência adquirida. E que, por exemplo, no Quebec, as inquietações de Jacques Godbout são tão necessárias quanto os enlevamentos inspirados de Gaston Miron. É que estas literaturas não tiveram tempo de evoluir harmoniosamente, do lirismo coletivo de Homero ao dissecamento de Beckett. É necessário que assumam de uma só vez, o combate, o militantismo, o enraizamento, a lucidez, a desconfiança de si mesmo, o absoluto do amor, a forma da paisagem, o nu das cidades, as ultrapassagens e as fixações. É o que eu chamo de nossa irrupção na modernidade.

Contudo, uma outra passagem tem lugar hoje, contra a qual nós nada podemos. É a passagem do escrito ao oral. Eu não estaria longe de acreditar que o escrito é o vestígio (trace) universalizante do Mesmo, onde o oral seria o gesto organizado do Diverso. Existe hoje uma vingança de muitas sociedades orais que, do próprio fato de sua oralidade, isto é, de sua não-inscrição no campo da transcendência, suportaram, sem poder defender-se o assalto do Mesmo. Hoje o oral pode se preservar ou se transmitir, de povo a povo. Parece que o escrito poderia transformar-se cada vez mais à medida do arquivo e que a escritura estaria reservada à arte esotérica e alquimia de alguns. É o que se manifesta na proliferação poluente de obras de livraria, que não são o símbolo da escritura, mas a reserva sabiamente orientada da pseudo-informação.

O escritor não deve velar a face diante de tal constatação. Pois a única maneira, na minha opinião de preservar a função da escritura (se cabe fazê-lo), isto é, de separá-la de uma prática esotérica ou de uma banalização informativa, seria de irrigá-la com as fontes do oral. Se a escritura não for preservada das tentações transcendentais, por exemplo, inspirando-se nas práticas orais, teorizando-as se for o caso, acredito que ela desaparecerá como necessidade cultural das sociedades futuras.

Como o Mesmo não será extinto nas vivacidades surpreendentes do Diverso, a escritura se fechará no universo fechado e sagrado do signo literário. Aí poderá realizar-se o sonho de Mallarmé, que também é o de Folch-Ribas, velho sonho do Mesmo, de abrir-se ao Livro (com um L maiúsculo). Mas não será o livro do mundo.

Uma literatura nacional apresenta todas estas problemáticas. Ela deve significar a nomeação dos povos novos, o que chamamos seu enraizamento, e que é hoje sua luta.

É a função de sacralização épica ou trágica. Ela deve significar - e se ela não o fizer (e apenas se ela não o fizer) ela permanecerá regionalista, isto é, folclorizada e caduca - a relação de um povo com o outro no Diverso, o que contribui para a totalização. É a função analítica e política, a qual não existe sem questionamento de si próprio.

Vê-se que se as literaturas ocidentais não precisam mais solenizar sua presença no mundo, operação fútil depois deste pesado processo histórico do ocidente, operação pela qual elas se demarcariam como mediocremente nacionalistas, elas têm, em compensação, o dever de meditar esta nova relação com o mundo, por onde elas assinalariam não mais seu lugar preeminente no Mesmo mas sua tarefa dividida no Diverso. É o que compreenderam os escritores franceses que, de maneira caricatural como Loti, trágica como Segalen, católica como Claudel, estética como Malraux, pressentiram que, depois de tanto terem caminhado em direção ao Oeste, que era enfim chegada a hora do Conhecimento do Leste. Hoje o Diverso abre os países. Quando examino a produção literária na França hoje, fico surpreso com o desconhecimento de tal clã, de tal falta de novas relações com o mundo, isto é, de sua falta de generosidade4. E não estou longe de pensar que nos encontramos em presença de uma espécie de periferia provisória do mundo.

Mas o Diverso é teimoso. Ele nasce em toda parte. As literaturas ocidentais reencontrarão esta função de inserção e se tornarão, dividindo o mundo, um sinal das nações, isto é um feixe do Relatado.

(continua)

Por uma epistemologia do Sul

Uma epistemologia do Sul assenta em três orientações:
aprender que existe o Sul;
aprender a ir para o Sul;
aprender a partir do Sul e com o Sul.

A música fora de si

"Os gritos dos sapos, de noite, não cessam. Sobem, separados, depois unidos, é impossível distingui-los uns dos outros, graves, agudos, débeis, poderosos, adicionam-se sem que se possam ver as gargantas de onde saem; incham a noite negra, enchem-na por completo, excluem todos os outros ruídos. Só eles existem. As linguagens, o roçar das folhas, as gotas de água, as respirações, o sussurrar dos insectos, nada mais existe. Só eles existem. Linguagem enfim total, por nada exprimir, tão-só um apelo, um desejo, a vida transformada em ruído. Colunas de órgãos umas contra as outras comprimidas, cada qual lançando o seu ruído teso, fora do sopro, ou fora das frases, fora do ritmo do coração ou dos movimentos dos brônquios. O concerto hesita, cresce, multiplica as suas buzinas, as suas sirenes. A noite está tão cheia de gritos que parece material, um ar de pedra, água de pedra, cheiros de pedra. Os sapos incham e desincham o papo, invisíveis, longínquos, e os seus gritos brotam ao mesmo tempo de todo o lado. Como se cada homem, cada animal e cada árvore levassem no fundo de si mesmos um sapo, como se a linguagem não fosse constituída senão pelos gritos dos sapos, como se as árvores estivessem envoltas em peles de sapo, e os olhos e as bocas fossem olhos e bocas de sapos.


Insistentes gritos, mágicos gritos, que arrasam o medo, que arrasam a morte. Os sapos estão em todo o lado, espalham-se pelo mundo, pela noite, apenas para gritar. Não se mexem. Não aparecem. Vivem, não morrem: os gritos cruzam-se, perturbam-se, unem-se, cem, trezentos, dez mil. Quantos serão eles? São apenas pelas gargantas que engrossam e se esvaziam, incansavelmente. Embriaguez gelada, que não está em seus corpos, nem nos cérebros, mas nas vozes, embriaguez que com o seu ruído paralisa o mundo. Os gritos imitam o sopro de respiração, mas não é um sopro, é um desdobrar da vida. Os sapos estão em todo lado. Tudo se torna sapo: o ar, a água, a floresta, as folhas das árvores, a lua, as nuvens, os rios, as resvaladiças sombras, os olhos dos animais, e , para além, talvez as cidades, as ruas cheias de vapor, as cascas dos automóveis, os rostos das mulheres, os estilhaços da guerra: são sapos, sentados nos pântanos, e virados uns para os outros, gritando sem se verem.

Embriaguez da identidade, a única identidade. Os homens tocam música com canas e são sapos. Por que haverá tanto ruído e tanto grito? Não há nada a dizer, talvez, e a noite não se volta, fica compacta, tem sempre o mesmo peso. Os gritos sucedem-se, pode ouvir-se cada um dos gritos, e ao mesmo tempo não se reconhece um só. Não há meio de os descrever. Escreve-se isto: iaô, iaô, oá, oá, ar, raô, vá, mas é o mesmo que nada ter escrito. Os ruídos sobem tão alto, tem tal força, que as palavras ficam bloqueadas no fundo da garganta e os pensamentos revolvem-se como bolas. Por vezes, sem razão, - nunca há razão para tudo isso – os gritos baixam. Hesitam, param. E é terrível o silêncio da noite. Depois voltam a subir, docemente, engrossam, dividem-se, batem contra o ecrã obscuro, pulam dois a dois, quatro a quatro, vinte a vinte. Dez mil gritos, cem mil gritos, em conjunto, ressoando, aumentados como se uma mão desconhecida girasse lentamente os três botões do amplificador onde estão escritas as palavas VOL TREBLE BASS. Eles aumentam os círculos da deflagração. Gritos sem raiva, sem ódio, sem paixão, que nada transportam, que nada pretendem, que não falam. Os sapos destroem a linguagem dos homens, e a linguagem dos pássaros, dos cães, dos morcegos. Os sapos inventam a música. Engrossam o corpo, fazem-no inchar, estendem sobre a terra a pele, cravam no mundo o olhar dos seus olhos. Os gritos regulares, sem harmonia, fazem erguer florestas estranhas, novas, por cima das florestas. Não se vêem as árvores, não se vê a folhagem, ouve-se porém cada um dos gritos estendendo sua ramagem no céu negro.

Os sapos já não são sapos, são os homens que são os sapos. Com os gritos eles desfazem em pedaços os sonhos e os desenhos, estão simplesmente sentados nas poças de água, escondidos na sombra, invisíveis, inacessíveis. As portas estão abertas, e através do ruído das flautas eles deslizam para o lugar sem perigo, sem inimigos, sem palavras.

Música impiedosa, e triunfal. A necessidade do ruído é por fim visível, é a sua evidência que trespassa o medo. Os gritos difundem-se em conjunto, balanceiam-se na obscuridade da noite, equilíbrio misterioso, ruídos do motor, os únicos ruídos verdadeiros do organismo vivo. Ruídos da comunidade, que soltam as gargantas uma à outra, que enxertam nas peles. Os homens, como os sapos, não têm nome. Mas os gritos que lhes desdobram o sopro são os seus nomes verdadeiros. Os gritos constantes percorrem o espaço e o tempo, entram por todos os orifícios de orelha que encontrarem. Os sons poderosos, encarniçados, juntos comprimidos, rede impenetrável às balas e às dentadas. Horror da sombra, do vazio, do silêncio, e delícias dos cantos triturados. As roucas gargantas uivam assim, durante horas, sem repouso, e os canudos profundos das flautas, e os altofalantes das violas eléctricas, durante horas sem se interromperem, sem falarem a ninguém, visando o céu vazio de inimigos, impregnando o universo de ruído, gritos de impaciência, moendo o mundo em poeira, possuindo os corpos semelhantes, fêmeas, gritos cujas modulações realizam de imediato o que a arte desejaria fazer, gritos de identidade e da metamorfose também: um dia, os homens estão sentados nos paúis, invisíveis na sombra dos húmidos esconderijos, no fundo das florestas, e as casas, as cidades de cimento, as estradas sulcadas de automóveis, as gares, as praias, as imensas áridas esplanadas estão povoadas de animais estranhos, de mãos moles, com as costas cobertas de pústulas, de rosto sem nariz onde os olhos são como duas glândulas: os sapos."

de "Índio Branco", de J.M.G. Le Clézio em tradução de Júlio Henriques, p.56-60

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Balthazar...


"Se nossa época alcançou uma interminável força de destruição,
é preciso fazer uma revolução que crie
uma indeterminável força de criação,
que fortaleça as lembranças, 
que delineie os sonhos, 
que materialize as imagens, 
que trate melhor os mortos, 
que dê aos efêmeros uma suntuosa leitura de sua transparência 
permitindo aos vivos uma navegação segura e veloz
por este vale de trevas.

O mundo em que vivemos necessita desesperadamente para subsistir 
da existência de pessoas contemplativas
e de poetas".  

campo. contracampo. nossa música .

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Como é

Em momentos de fraqueza eu...
durmo.
Quando estou escrevendo,
estou sempre caindo no sono.
Quanto aos pés, às vezes uso uma meia curta em cada um, ou uma meia curta num e uma meia normal noutro, ou uma bota, ou um sapato, ou um chinelo, ou uma meia curta e uma bota, ou uma meia curta e um sapato, ou uma meia curta e um chinelo, ou uma meia comum e uma bota, ou uma meia comum e um sapato, ou uma meia comum e um chinelo, ou simplesmente nada.
E às vezes uso em cada pé uma meia comum, ou num deles uma meia comum e no outro uma bota, ou um sapato, ou um chinelo, ou uma meia curta e uma bota, ou uma meia curta e um sapato, ou uma meia curta e um chinelo, ou uma meia comum e um chinelo, ou simplesmente nada.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Abril























Eu vi
Um vivo
Sol
Ou tom no
Só no
Sono
Azul.
Enquanto
Do canto
Dos teus calcanhares
Calcas os ares
Para o novelo
Da nebulosa,
Teu cotovelo
Em ângulo alvo
Alteando os lábios.
Abril
Abrir
A voz
As provas
De
Deuses.
Consonha
Em vôo
Aberto
O abeto,
Colhe os
Olhos
Azuis
Com os laços
Das sobrancelhas
E dos pássaros
Cerúleos.
No anil.
Há mil.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

V.

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
a folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminoso, no ar.
É preciso a saudade para eu te sentir
como sinto -em mim- a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outro e múltiplo e imprevisto
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.