quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Teoria sentada



Um lento prazer esgota a minha voz. Quem
canta empobrece nas frementes cidades
revividas. Empobrece com a alegria
por onde se conduz, e então é doce
e mortal. Um lento
prazer de escrever, imitando
cantar. E vendo a voz disposta
nos seus sinais, revelada entre a humidade
dos corpos e a sua
glória secular. Uma dor esgota
a idade, com cravos, da minha voz.
E eu escrevo como quem imita uma vida e a vida
de uma inconcebível
magnitude. Ou somente de uma
voz. Um lento desprazer, uma
solidão verde, ou azul, esgota por dentro e para cima,
como um silêncio, o antigo
de minha voz.

O que digo é rápido, e somente o modo
de sofrer
é lento e lento. É rapidamente fácil e mortal
o que agora digo, e só
as mãos lentamente levantam o álcool
da canção e a formosura
de um tempo absorvido. Digo tudo o que é
mais fácil da vida, e o fácil
é duro e batido pela paciência.
Porque a terra dorme e acorda de uma
para outra estação.

Porque vi crianças alojadas no meus
melhores instantes, e vi
pedaços celestes fulminados na minha
paixão, e vi
textos de sangue marcados desordenadamente
pelo ouro. Porque vi e vi, na saída
de um dia para o começo
da primeira noite, e no despedaçar da noite.
E porque me levantei para sorrir
e ser cândido. E porque então
estremeci com a rapidez das palavras e a quente
morosidade
da vida. Eu disse o que era fácil
para dizer e eu tão
dificilmente havia reconhecido. Porque eu disse:
um prazer, um pesado prazer de cantar
a vida, consome a única voz
de uma vida mais sombria e mais funda.
E eu mudo sobre este campo parado
de cravos, quando a lua
rebenta, quando
sóis e raios crescem para todos os lados do seu
fulminante país.

Alguém se debruça para gritar e ouvir em meus
vales
o eco, e sentir a alegria de sua expressa
existência. Alguém chama por si próprio,
sobre mim, em seus terríficos confins.
E eu tremo de gosto, ardo, consumo
o pensamento, ressuscito
dons esgotados. Escrevo à minha volta,
esquecido de que é fácil, crendo
só no antigo gesto que alarga a solidão contra
a solidão do amor.
Escrevo o que bate em mim - a voz
fria, a alarmada malícia
das vozes, os ecos de alegria e a escuridão
das gargantas lascadas. Para os lados,
como se abrisse, com a doçura de um espelho
infiltrado na sombra. Fiel
como um punhal voltado para o amor
total de quem o empunha.

Alguém se procura dentro de meu ardor
escuro, e reconhece as noites
espantosas do seu próprio silêncio. E eu falo,
e vejo as mudanças e o imóvel
sentido do meu amor, e vejo
minha boca aberta contra minha própria boca
num amargo fundo de vozes
universais.

Alguém procura onde eu estou só, e encontra
o campo desbaratado
e branco da sua
solidão.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

POEMAS PARA COMBATIR LA CALVICIE

 
MANIFESTO

Senhoras e senhores
Esta é a nossa última palavra
- Nossa primeira e última palavra –
Os poetas desceram do Olimpo.
Para os nossos antepassados
A poesia era um objeto de luxo
Mas para nós
É um artigo de primeira necessidade:
Não podemos viver sem poesia.
Diferente de nossos antepassados
- E o digo com todo respeito... –
Nós sustentamos
Que o poeta não é um alquimista
O poeta é um homem como os outros
Um pedreiro que constrói seu muro
Um construtor de portas e janelas.
Nós conversamos
Na linguagem de todos os dias
Não acreditamos em signos cabalísticos.
Ademais, uma coisa:
O poeta está aí
Para que a árvore não cresça torcida.
Esta é a nossa mensagem.
Nós denunciamos o poeta demiurgo
O poeta Barata
O poeta Rato de Biblioteca.
Todos estes senhores
- E o digo com muito respeito...-
Devem ser processados e julgados
Por construírem castelos no ar
Por esbanjarem o espaço e o tempo
Redigindo sonetos à lua
Por agruparem palavras ao azar
Conforme a última moda em Paris.
Para nós, não:
O pensamento não nasce na boca
Nasce no coração do coração.
Nós repudiamos
A poesia de óculos escuros
A poesia de capa e espada
A poesia de chapéu abanado.
Propiciamos a mudança
A poesia a olho nu
A poesia a peito aberto
A cabeça de cabeça descoberta.
Não acreditamos em ninfas nem tritões.
A poesia tem que ser assim:
Uma garota rodeada de espigas
Ou não ser absolutamente nada.
Porém, no plano político
Eles, nossos avós imediatos,
Nossos bons avós imediatos!
Refrataram e se dispersaram
Ao passarem pelo prisma do cristal.
Uns poucos se tornaram comunistas
Não sei se foram realmente.
Suponhamos que foram comunistas,
O que eu sei é o seguinte:
Que não foram poetas populares,
Foram uns reverendos poetas burgueses.
Devemos dizer as coisas como são:
Somente um ou outro
Soube chegar ao coração do povo.
Sempre que puderam
Declararam de palavra e de peito
Contra a poesia dirigida
Contra a poesia do presente
Contra a poesia proletária.
Aceitemos que foram comunistas
Mas a poesia foi um fracasso
Surrealismo de segunda mão
Decadentismo de terceira mão,
Tábuas velhas devolvidas pelo mar.
Poesia adjetiva
Poesia nasal e gutural
Poesia arbitrária
Poesia copiada dos livros
Poesia calcada
Na revolução da palavra
Em circunstâncias de poder fundar-se
Na revolução das idéias.
Poesia do círculo vicioso
Para meia dúzia de eleitos:
“Liberdade absoluta de expressão!”
Hoje nos persignamos perguntando
Para que escreviam essas coisas
Para assustar ao pequeno burguês?
Tempo miseravelmente perdido!
O pequeno burguês não reage
Senão quando se trata do estômago.
Como vão assustá-lo com poesias?!

A situação é a seguinte:
Enquanto eles estavam
Por uma poesia do crepúsculo
Por uma poesia da noite
Nós propugnamos
A poesia do amanhecer.
Esta é a nossa mensagem.
Os resplendores da poesia
Devem chegar a todos por igual
A poesia chega para todos.
Nada mais, companheiros
Nós condenamos
- E o digo com respeito...-
A poesia do pequeno deus
A poesia da vaca sagrada
A poesia do touro furioso.
Contra a poesia das nuvens
Nós contrapomos
A poesia da terra firme
- Cabeça fria, coração ardente
Somos pés-no-chão decididos...
Contra poesia de café
A poesia da natureza
Contra a poesia de salão
A poesia de protesto social.
Os poetas desceram do Olimpo.

Estrela Distante. Detetive Selvagem.

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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

ENTARDECER - K 488 Adagio

É tarde amor
É tarde para ser
Tarde para olhar-te de frente
Tarde para beijar-lhe o rosto no sorriso do tempo

Cá estou acometido por furores abstratos
Cá estou às costas, às tuas
Lançando suspiros de quem dura e sonha
De quem partilha as idades do céu e da terra
E das águas que inundam tudo

Bate e retorna os timbales do adeus
Bate no rosto o toque de tudo que volta
Aquilo que viaja e se enrosca em nós
Aquilo que nos sobrevive e devasta 

Levantei minhas pálpebras no fundo da noite
Lancei-me negro a negro em teus olhos
Vi a mulher nua no milagre de todas as coisas
E tu viste em mim a fé consumada
A celebrada certeza
De frágil lume nas mãos 

Brindamos o círculo presente
Erguemos os cálices futuros
Falamos dores leves
Calamos dores grandes
E com os dedos crepusculares
Escorregando pelas coxas
Desabamo-nos um sobre o outro
Destino sobre destino
Estremecidos e confundidos
Em camas amarrotadas
E lares estrelados

É quando eclipsamos longas e vastas ofensas ao mundo
Ofensas que abarrotam cidades em declínio
Ao mesmo tempo brutas e suaves
Em repetidas llibações de desespero
Sólidas solidões flutuantes
Rasgos elétricos
E tropeços bêbados

Sou o vento que lhe sopra às costas
Sou quem empurra o facho radiante de tua linguagem
Sou as folhagens que lhe balançam o verão
Sou quem cura a ferida da pedra, a sombra do dia
Sou a pétala adocicada de tua infância
Sou quem pede amor com olhos vazados de nascentes
Sou o dragão dardejante que te enleva a arte

A uma vagarosa mulher no mundo
Que agora amadurece o fruto da idade
Envio este meu presente, poemacto
Enlaço-me em teus cabelos e a ti despetalo

Na tarde do tempo cor de mel
Tarde de menos para dizer que alguém
Em algum lugar no mundo pulsa por ti
E lhe deseja reforços interiores
E terrenos habitáveis do sublime

Invento que é tempo de botões em flor
Tempo de esgotar a amada para ver
Como o amor trabalha na loucura
Tempo de levar a palavra para casa
Tempo de carregar a canção do fim dos tempos
Para as luas plácidas de teus lábios
E para as noites quentes de teu quarto

Reunir, expor e mudar tudo
De novo outra vez lá
No clamor da pele
No estertor dos ossos
No interior do seio

Aí onde vagueia em névoa
Teu mais secreto e álacre
Coração 
Que em ti e a mim
Estala
Persistente
Silente
Astra

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Homenagem a John Cage

No ano passado me liga uma dançarina aqui de BH dizendo que precisava de uma trilha sonora para uma performance solo de dança contemporânea. Marcamos um café e na conversa ela me disse que a coreografia seria inspirada nas vanguardas artísticas do séc. XX, com ênfase nos artistas norte-americanos, já que a performance seria apresentada lá. Achei meio esquisito uma brasileira levar para o EUA um trabalho com referências tão diretas aos artistas de lá com o risco da coisa ficar meio insossa e patética.  Nos despedimos com o compromisso que ela me ligaria para marcarmos um segundo encontro, quando eu levaria alguma idéia ou proposta. Fui pra casa com o desafio de pensar em alguma coisa...Foi então que me veio à mente figura de John Cage...pelo seu experimentalismo, pela sua interação com outras aéreas artísticas (inclusive a dança), pela sua ruptura estética, seu pensamento e seu interesse pela antropologia e a cultura de outros povos. Foi então que comecei a ler o livro "Silence" de Cage e a ouvir várias gravações de peças dele. Daí comecei a brincar sem compromisso, colando e sobrepondo algumas peças distintas, algumas compostaspara percussão ou voz.  Me interessei sobretudo por uma longuissima gravação dos diários de Cage, gravados na voz do próprio compositor. Os diários reúnem reflexões, comentários e apontamentos sobre o mundo, a arte, o processo civilizatório ocidental e oriental etc.. Então me veio a idéia de produzir alguns caleidóscópios sonoros utilizando esses diários-sonoros e intercalá-los com peças para piano preparado que fossem mais "cruas" e "diretas", que tivessem uma sonoridade tímbrica e tratamento musical mais definido para ajudar no trabalho coreográfico.
Essa idéia de caleidoscópio-sonoro feito apartir de colagens foi um recurso bastante experimentado por Cage, como por exemplo a recriação do Finnegans Wake de James Joyce onde Cage utilizou um vasto mosaico de sons e paisagens sonoras. O próprio conceito de colagem não era para Cage nenhum problema, já que a criação no século XX não poderia continuar refém ao tabu e ao culto do autoral e do "original"...
O que aconteceu foi que a bailarina nunca mais me ligou e nada aconteceu.
Em todo caso guardei alguma coisa dessa minha brincadeira e experimentaçãozinha:

Homenagem a John Cage by Francisco Cesar

Vida


VIDA,
a minha, a tua,
eu poderia dizê-la em duas
ou três palavras ou mesmo
numa
corpo
sem falar das amplas
horas iluminadas,
das exceções, das depressões
das missões,
dos canteiros destroçados feito a boca
que disse a esperança
fogo
sem adjetivar a pele
que rodeia a carne
os últimos verões que vivemos
a camisa de hidrogênio
com que a morte copula
(ou a ti, março, rasgado
no esqueleto dos santos)
Poderia escrever na pedra
meu nome
gullar
mas eu não sou uma data nem
uma trave no quadrante solar
Eu escrevo
facho
nos lábios da poeira
lepra
vertigem
cona
qualquer palavra que disfarça
e mostra o corpo esmerilado do tempo
câncer
vento
laranjal.

[Ferreira Gullar - O vil metal, 1954-60]

Vida by Francisco Cesar

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Buenas noches, Che bandoneón


No fim dos anos 70, em Paris, o grande bandoneonista argentino Juan José Mosalini convidou Julio Cortázar para uma pequena participação em seu disco solo. O resultado desse encontro foi um texto curto para a primeira faixa do disco, escrito e gravado na voz do próprio escritor entitulado: "Buenas noches, che bandoneón" 

Texto escrito por Julio Cortázar em 1979:

La alianza del bandoneón y el tango nace com nuestro siglo y tiene por escenario la ciudad de Buenos Aires. Instrumento destinado a otros fines musicales en su Alemania natal, el “fuelle” como lo llaman gráficamente los argentinos, se adapto sin el menor esfurzo a una música que hasta entonces se tocaba con otros instrumentos.

Lo más admirable es que a su vez el tango se reconoció por así decirlo en el bandoneón. Em su sonido inconfuntible y sus posibilidades instrumentales, y muy pronto hubo entre ellos una intimidad que jamás se interrumpió que sigue dando una música como la que contiene este disco.

Esa alianza entrañable se tradujo desde el principio por um diálogo que no solamente concernia a la música sino a lãs palabras de los tangos. Los poetas populares comprendieron muy pronto que ele bandoneón contenía la esencia del tango, como tan bien La resumió Julian-Centeya:

Bandoneón castigado, taciturno y doliente,
Voz quejosa y antigua del farol parpadeante...  

Todo está dicho aqui em dos versos: el “fuelle” condensa lãs nociones de miséria, de melancolia y de dolor de La vida del subúrbio porteño, visto bajo La luz mortecina de los faroles callejeros. Numerosos son los tangos donde el que canta se dirige al bandoneón como a um interlocutor o confidente, estrechando aún más la relación entre música y instrumento. 


Así, cuando se trata de las tristes heroínas de los cabarets porteños, cuya efímera gloria termina siempre em el hopsital y el abandono, se dice de ellas que se apagaron bajo “ el arrullo funeral del bandoneón” (Griseta). En las horas del triunfo o de la desolación, el “fuelle” está siempre ahí porque, como lo definió admirablemente Cátulo Castillo, es para nosostros “un corazón que suena”. Poco a poco, de fragmentos múltiples que, cuando tiene ganas de sonar bien, cuando es tocado por alguien que merece tenerlo entre las manos, vale por toda una orquestra y le da al tango su más alta belleza.

Cosas así explican que los argentinos nos sintamos tan identificados com el bandoneón, y que hablemos como se habla aqui, diciendole familiarmente:

Buenos noches, che bandoneón, qué Bueno verte bien y en tan buenas manos...

No se me ponga modesto, Don fuelle; hágame escuchar suas músicas mientras yo lo acompaño com vino y tabaco y tantas nostalgias, todo eso que lleva los muchos nombres que usté tiene, porque usté se llama Ciriaco Ortiz, se llama Federico, se llama Laurenz, se llamma Piazzolla, se llama Pichuco, se llama tantos otros, y esta noche se llama Juan José Mosalini. Ya ve si lo conozco; respire a fondo y déle, cuénteme de ese Buenos Aires tan lejano ahora para mi, cuénteme de mi propia vida de pibe y de muchacho...

Y gracias, Che bandoneón

Julio Cortázar.


domingo, 21 de agosto de 2011

O HOMEM-ÁRVORE


Na obra literária de Artaud há muitas referencias ao homem-árvore esse que preserva a consciência sobrenatural das primeiras idades do mundo, ainda não pervertida pela Sociedade, não dissolvida nas funções rasteiras de um organismo. Mas o homem-árvore subsiste mal no mundo de hoje, é imolado pelas inquisições.

Quando Artaud fala do Van Gogh que a Sociedade suicida, não pode deixar de ver-lhe a árvore atacada, na sua pureza, por instrumentos negros e corruptores: a Sociedade apagou-lhe a consciência sobrenatural que ele acabava de ganhar e, como se fora uma inundação de corvos negros das fibras de sua árvore interna, submergiu-o num ataque repentino e tomando-lhe o lugar, matou-o.
Nada melhor do que o homem-árvore para servir a uma reflexão final sobre o destino da humanidade. E Artaud condena-a por traição ao primeiro homem sem órgãos nem função mas de vontade que anda, anterior a este que se vê intacto de aparência mas evoluído internamente para um organismo sem dor própria. Ao homem de nervos elétricos sucedeu outro sem produção mágica e condenado às misérias do organismo e de mundo com supremacia da ordem do lucro e de instituições burguesas.

O HOMEM-ÁRVORE
(Carta a Pierre Loeb)

Antonin Artaud

O tempo em que o homem era uma árvore sem órgãos nem função,
mas de vontade
e árvore de vontade que anda,
voltará.
Existiu, e voltará.
Porque a grande mentira foi fazer do homem um organismo,
ingestão, assimilação,
incubação, excreção,
o que existia criou toda uma ordem de funções latentes e que escapam
ao domínio da vontade decisora,
a vontade que em cada instante decide de si;
porque assim era a árvore humana que anda,
uma vontade que decide a cada instante de si,
sem funções ocultas, subjacentes, que o inconsciente rege.
Do que somos e queremos na verdade pouco resta,
um pó ínfimo sobrenada, e o resto, Pierre Loeb, o que é?
Um organismo de engolir, pesado na sua carne,
e que defeca e em cujo campo,
como um irisado distante,
um arco-íris de reconciliação com deus,
sobrenadam,
nadam os átomos perdidos,
as idéias, acidentes e acasos no total de um corpo inteiro.
Quem foi Baudelaire?
Quem foram Edgar Poe, Nietzsche, Gérard de Nerval?
Corpos que comeram, digeriram, dormiram,
ressonaram uma vez por noite,
cagaram entre 25 e 30 000 vezes,
e em face de 30 ou 40 000 refeições,
40 mil sonos, 40 mil roncos,
40 mil bocas acres e azedas ao despertar,
tem cada qual de apresentar 50 poemas,
o que realmente não é de mais,
e o equilíbrio entre a produção mágica e a produção automática
está muito longe de ser mantido,
está todo ele desfeito,
mas a realidade humana, Pierre Loeb, não é isto.
Nós somos os 50 poemas,
o resto não somos nós,
mas o nada que nos veste, se ri, para começar, de nós.
Um organismo de engolir vive de nós a seguir.
Ora, este nada nada é,
não é qualquer coisa mas alguns.
Quero dizer alguns homens.
Animais sem vontade nem pensamento próprio,
ou seja, sem dor própria,
que em si não aceitam vontade de uma dor própria
e para forma de viver mais não encontraram que falsificar a humanidade.
E da árvore-corpo, mas vontade pura que éramos,
fizeram este alambique de merda,
esta barrica de destilação fecal,
causa de peste e de todas as doenças
e deste lado de híbrida fraqueza,
de tara congênita, que caracteriza o homem nato.
Um dia o homem era virulento,
só era nervos elétricos,
chamas de um fósforo perpetuamente aceso,
mas isto passou à fábula porque os animais lá nasceram,
os animais, essas deficiências de um magnetismo inato,
essa cova de oco entre dois foles de força
que não eram, eram nada e passaram a ser qualquer coisa,
e a vida mágica do homem caiu,
caiu do seu rochedo com ímã
e a inspiração que era o fundo
passou a ser o acaso, o acidente, a raridade, a excelência,
talvez excelência
mas à frente de um tal acervo de horrores,
que mais valia nunca ter nascido.
Não era o estado de paraíso,
era o estado-manobra, - operário,
o trabalho sem rebarbas, sem perdas,
numa indescritível raridade.
Mas esse estado por que não continuou?
Pelas razões que levam o organismo de animal,
que foi feito para e por animais
e desde há séculos lhe aconteceu, a explodir.
Exatamente pelas mesmas razões.
Mais fatais umas do que outras.
Mais fatal a explosão do organismo dos animais
que a do trabalho único
no esforço dessa vontade única
e muito impossível de encontrar.
Porque realmente o homem-árvore,
o homem sem função nem órgãos que lhe justifiquem a humanidade,
esse homem prosseguiu sob a capa do ilusório do outro,
a capa ilusória do outro,
prosseguiu na sua vontade mas oculta,
sem compromissos nem contacto com o outro.
E quem caiu foi quem quis cercá-lo e imitá-lo
mas logo depois com muita força,
estilo bomba,
irá revelar a sua inanidade.
Porque devia criar-se um crivo
entre o primeiro dos homens-árvores
e os outros,
mas aos outros foi preciso o tempo,
séculos de tempo
para os homens que tinham começado
ganharem o seu corpo
como aquele que não começou
e não parou de ganhar o seu corpo mas no vazio,
e não havia lá ninguém,
e lá não havia começo.
E então?
Então.
Então as deficiências nasceram
entre o homem e o labor árido que era bloquear também o nada.
Em breve esse trabalho será concluído.
E a carapaça terá de ceder.
A carapaça do mundo presente.
Levantada sobre as mutilações digestivas
de um corpo esquartelado em dez mil guerras
e pela dor, e a doença, e a miséria,
e a penúria de gêneros, objetos e substâncias de primeira necessidade.
Os que sustentam a ordem do lucro
das instituições sociais e burguesas,
que nunca trabalharam
mas grão a grão amealharam o bem roubado
desde há bilhões de anos
e conservado em certas cavernas de forças
defendidas pela humanidade inteira,
com algumas tantas exceções
vão ver-se obrigados a gastar as energias
nessa coisa que é combater,
vão lá poder deixar de combater,
pois no fim da guerra e esta agora, apocalíptica,
que há-de vir,
está a sua cremação eterna.
Por isto mesmo eu julgo
que o conflito entre a América e a Rússia,
reforçado ele seja a bombas atômicas,
pouco vai ser
ao lado e em face do outro conflito
que vai repentinamente estalar
entre quem preserva uma digestiva humanidade, por um lado,
e por outro o homem de vontade pura
e os seus muito raros aderentes e sequazes mas com a sempiterna força por si.

*ARTAUD, Antonin. Eu, Antonin Artaud. Lisboa: Hiena Editora, 1988, p. 105-110.



sábado, 20 de agosto de 2011

Dança dos Cavaleiros



 Penso nesse tema "Montéquios e Capuletos". Os soberanos do passado e de sempre.Penso nas oligarquias guerreiras que sempre competiram entre si, que nos governaram por séculos e que ainda nos governarão com máscaras renovadas de tirania. Penso na tragédia de Romeu e Julieta. O tema shakespeariano de que os indivíduos, suas razões, seus afetos e desejos se tornam secundários à pertença a um grupo específico. Penso nessa questão dramática:  a de que as ações e o discurso de cada uma das personagens são avaliados não por seu valor intrínseco, mas como manifestação de um outro a quem é compulsório rejeitar.

lembro de uma frase de Andrei Tarkovski:

"A arte é, por natureza, aristocrática e seletiva em seus efeitos sobre o público…."

E continuo com ele:

"No entanto, a natureza aristocrática da arte de forma alguma exime o artista da responsabilidade para com seu público e até mesmo, se assim preferirem, para com as pessoas em geral. Pelo contrário: a função da consciência especial que tem do seu tempo e do mundo em que vive, o artista torna-se a voz daqueles que não podem expressar sua concepção da realidade. Nesse sentido, o artista é realmente vox populi. Esta é a razão pela qual ele é chamado a contribuir com seu talento, o que significa servir ao seu povo….A arte, como afirmei anteriormente, atinge as emoções de uma pessoa, não sua razão…Assim que se começa a atender ao gosto popular, o que entra em jogo é a indústria de diversões, o show business, as massas e coisas do gênero, mas nunca a arte, que necessariamente obedece as suas leis imanentes de desenvolvimento, queiramos ou não…. O verdadeiro diálogo entre diretor e o espectador só é possível quando ambos têm o mesmo grau de compreensão dos problemas, ou, pelo menos, quando a abordagem dos objetivos que o diretor se auto impôs ocorre num mesmo nível."

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

"How small a thought it takes to fill a whole life!" Wittgenstein

“Como um pequeno pensamento basta para preencher toda uma vida!”


domingo, 14 de agosto de 2011

Lugar IV

Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.

Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde
uma paxão bárbara, um amor.
Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
o minha loucura, escada
sobre escada.

MuIheres que eu amo com um des-
espero fulminante, a quem beijo os pés
supostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror,
com alegria. Em que toco levemente
levemente a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces
e formidáveis no espaço, dentro
de ténues pérolas.

Que racham a luz de alto a baixo
e criam uma insondável ilusão.
Dentro de minha idade, desde
a treva, de crime em crime – espero
a felicidade de loucas delicadas
mulheres.
Uma cidade voltada para dentro
do génio, aberta como uma boca
em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.

Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus.
É a vida futura tocando o sangue
de um amargo delírio.
Olho de cima a beleza genial
das suas cabeças
ardentes: – E as altas cidades desenvolvem-se
no meu pensamento quente.

(Herberto Helder)

sábado, 13 de agosto de 2011

EN MODO DE DANZA

Constantemente decían:

“Nosotros y tú
Estamos aquí
Somos de aquí
Pertenecemos
Nos convivimos.”

El punteo harmonioso
De las hojas
De los álamos
Danzando al viento

Y nuestra vida
Era sólo huir

¡Sólo huir!

“Nosotros y tú
Estamos aquí
Somos de aquí
Pertenecemos
Nos convivimos”

(R. Daluisio)

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Três preceitos fundamentais na criação artística segundo Alexander Sokurov:

1º Contar apenas consigo mesmo

2º Ser paciente

3º Trabalhar em todas as condições possíveis - ruins, desfavoráveis - e não se importar com as reações a seu trabalho.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Samuel Beckett, vem e vai

A nova geração: Per Arne Glorvigen

Natural da Noruega, Per Arne Glorvigen, formou-se em música e então descobriu bandoneón. Estudou na França com um dos mestres no instrumento, da geração pós Piazzolla: Juan José Mosalini.





quarta-feira, 13 de julho de 2011

TANTAS CONSTELAÇÕES que nos
são oferecidas. Quando
eu te vi  - quando? -,
eu estava
em outros mundos.

Estas vias, galácticas,
esta hora que
estendeu as noites à
carga dos nossos nomes.
Sei, eu sei que não é verdade
que estivéssemos vivos, tão somente
um alento é que cego andava
lá e não-aí, e às vezes
um olho sibilava feito um cometa
até o extinto, nos abismos,
 e lá onde isso ardia estava
Cronos coroado,
no qual concrescia, transcrescia
subscrescia, excrescia tudo o que
é ou foi ou será - ,

sei,
eu sei e tu sabes, nós sabíamos
não sabíamos não, nós
estávamos bem aí e não lá,
e, as vezes, quando
apenas o Nada estava entre nós,
nós nos encontrávamos plenamente.

sábado, 9 de julho de 2011

" um outro mundo melhor na barriga deste mundo de merda"



Depoimento de Eduardo Galeano na praça Catalunya, 24/05/11.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

FIAPOSSÓIS

as cabeças, monstruosas, e a cidade
que elas constroem, em busca da
felicidade

Se ainda uma vez, a ti fiel, fosses a minha dor,
e um lábio passasse por perto, do lado de cá, neste
lugar onde ando além de mim mesmo,

eu te levaria
por esta estrada
em frente.

(...) no caso de Celan as suas dúvidas, inquietudes, dilemas, levaram-no realmente a uma poesia visceral, contribuindo talvez para literalmente destruí-lo. Afinal, o seu suicídio, em 1970, certamente que em parte deve ter sido provocado ...pela sua incapacidade de crer numa possibilidade de redenção para a humanidade, para a história e para a própria condição humana.


Celan não logrou ou não quis essa crença, fosse através da ação política, da beleza artística ou mesmo da apreensão do sagrado, do divino que há na história e no mundo, e que nos cabe desvelar e mesmo ajudar a construir, cada um da forma que puder.

O poeta não conseguiu acreditar que seria possível para o poeta resistir ao mal e ao erro espalhado no mundo pelas ‘cabeças monstruosas’; não vislumbrou que é possível e necessário, não somente ao poeta mas a qualquer indivíduo, contribuir para extirpar do mundo as condições sociais objetivas que sustentam essas ‘cabeças monstruosas’, mesmo que essa vitória não se dê ao longo de nosso breve tempo de vida.

PARTITURA DE NEVE

ILEGIBILIDADE deste
mundo. Tudo duplo.

Os relógios poderosos
dão razão à hora físsil
roucos

Tu, encalacrado em teu âmago
te apeias de ti
para sempre.

Cão Maior

"os cães gerais ladram às luas que lavram pelos desertos fora, mas a gota de água treme e brilha, não uses as unhas senão nas linhas mais puras, e a grande Constelação do Cão galga através da noite do mundo cheia de ar e de areia e de fogo, e não interrompe ministério nenhum nem nenhum elemento, e tu guarda para a escrita a estrita gota de água imarcescível contra a turva sede da matilha, com tua linha limpa cruzas cactos, escorpiões, árduos buracos negros: queres apenas aquela gota viva entre as unhas, enquanto em torno sob as luas os cães cheiram os cus uns aos outros à procura do ouro"

Herberto Helder

(publicado em 07 de maio de 2011 no jornal "O Público" de Portugal)

sexta-feira, 1 de julho de 2011

quando a verdade e beleza se encontram

um poema de Emily Dickinson

Morri pela beleza – e assim que no Jazigo
Meu Corpo foi fechado,
Um outro Morto foi depositado
Num Túmulo contíguo –

“Por que morreu?” murmurou sua voz.
“Pela Beleza” – retruquei –
“Pois eu – pela Verdade – É o mesmo. Nós
Somos Irmãos. É uma só lei” –

E assim Parentes pela Noite, sábios –
Conversamos a Sós –
Até que o Musgo encobriu nossos lábios –
E – nomes – logo após –

(Em "Não sou ninguém" - seleção e tradução de Augusto de Campos)

terça-feira, 14 de junho de 2011

FURORES ABSTRATOS

"Eu, naquele inverno, estava tomado de furores abstratos. Não direi quais, não é isso que me proponho a contar. Mas é preciso dizer que eram abstratos, nada heróicos, nem vivos; de qualquer maneira, furores pelo gênero humano perdido. Vinha assim há muito tempo, e andava cabisbaixo. Via manchetes nos jornais sensacionalistas e abaixava a cabeça; estava com os amigos, uma hora, duas horas, e ficava com eles sem abrir a boca; abaixava a cabeça; e tinha uma moça ou uma mulher que me esperava, mas nem com ela eu trocava uma palavra, mesmo com ela eu abaixava a cabeça. Chovia o tempo todo, passavam-se os dias, os meses, e eu tinha os sapatos furados, a água me entrando nos sapatos, e não era mais nada que isso: chuva, carnificinas nas manchetes dos jornais, e água nos meus sapatos furados, amigos mudos, a vida em mim como um sonho surdo, e não-esperança, calmaria. Isso era terrível: a calmaria na não-esperança. Dar o gênero humano como perdido e não ter vontade de fazer coisa alguma quanto a isso, nem vontade de me perder, por exemplo, com ele. Eu estava perturbado por furores abstratos, não no sangue, e ficava quieto, sem vontade de nada. Não importava que minha namorada estivesse me esperando, estar com ela ou não, ou folhear o dicionário, era para mim a mesma coisa; e sair para ver os amigos, ou ficar em casa, era o mesmo para mim. Estava quieto; como se nunca tivesse tido um dia de vida, nem jamais soubesse o que é ser feliz, como se nada tivesse a dizer, a afirmar, a negar, nada de meu para pôr em jogo, nada a escutar, a dar, e nenhuma disposição de ganhar, como se em todos os anos de minha vida nunca tivesse comido pão, bebido vinho, ou tomado café, nunca tivesse estado na cama com uma mulher, nunca tivesse tido filhos, nunca tivesse brigado a socos com alguém, ou não achasse tudo isso possível, como se eu nunca tivesse tido uma infância na Sicília, entre os figos-da-índia e o enxofre das minas, nas montanhas; mas, dentro de mim, eu me agitava com os furores abstratos, e pensava sobre o gênero humano perdido, abaixava a cabeça, e chovia, não dizia uma só palavra aos amigos, e a água me entrava nos sapatos."
(Elio Vittorini; Conversa na Sicília)

quarta-feira, 1 de junho de 2011

mulher, Uma Recordação

Não há homem que consiga deixar uma marca
nela. Todo o passado se dilui num sonho
como uma rua na manhã e só fica ela.
Se não fosse a testa franzida por um momento
pareceria atónita. As maçãs do rosto têm sempre
um sorriso.

                   Também não se acumulam os dias
no seu rosto, nem alteram o sorriso leve
que irradia sobre todas as coisas. Com uma firmeza dura
faz cada coisa como se fosse a primeira;
no entanto vive-a até ao último momento. O seu corpo
firme abre-se, o olhar recolhido,
a uma voz doce e algo rouca: à voz
dum homem cansado. E nenhum cansaço a toca.

Quando se lhe olha para a boca, semicerra os olhos
à espera: ninguém se arriscaria.
Muitos homens conhecem o seu ambíguo sorriso
ou a súbita ruga. Se homem existiu
que a soube queixosa, humilhada de amor,
paga dia após dia, ignorando dela
por quem vive hoje.

                                  Caminhando pela rua
sorri sozinha o sorriso mais ambíguo.

Cesare Pavese, in 'Trabalhar Cansa'