Silencio no campo
Uma borboleta voava
Depois adormeceu
terça-feira, 29 de novembro de 2011
Palabras Salvajes
"Afuera ruje el bosque, adentro todo se volverá mas oscuro y mas radiante"
Marosa di Giorgio
Marosa di Giorgio
sábado, 26 de novembro de 2011
POEMA CHINÊS
Minha barca deliza rápida.
Contemplo o rio.
Há nuvens passando pelo céu.
A água é também uma noite clara.
Quando uma nuvem escorrega por cima da lua,
vejo-a escorregar no rio
e parece-me que vago em pleno céu.
Penso em minha amada
que se reflete assim
em meu coraçao.
Contemplo o rio.
Há nuvens passando pelo céu.
A água é também uma noite clara.
Quando uma nuvem escorrega por cima da lua,
vejo-a escorregar no rio
e parece-me que vago em pleno céu.
Penso em minha amada
que se reflete assim
em meu coraçao.
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
FREEDOM DAY
Responsável por incluir o nome de um dos maiores talentos do Jazz, Max Roach, na lista negra das gravadoras durante o período da segregação racial nos Estados Unidos, We Insist! Freedom Now Suite foi um projeto ambicioso e provocativo, a começar pela própria capa do disco.
Baseado na composição textual do poeta e cantor Oscar Brown Jr, em ocasião do centenário da Proclamação da Emancipação, contando com a presença ilustre da cantora e futura esposa de Roach, Abbey Lincoln, que quebrando velhos conceitos ao inserir pela primeira vez o grito como um elemento musical, é capaz de marcar energicamente o ouvinte com um lamento sincero dos oprimidos que clamavam por mudanças urgentes.
We Insist! Freedom Now Suite, é sem qualquer sombra de dúvida uma audição histórica para a música negra americana, trilha-sonora da luta dos direitos civis que eclodiriam em 1963 com a Marcha sobre Washington.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Descascamos o Tempo das nozes e o ensinamos a partir :
O Tempo regressa à casca
No espelho é domingo ,
no sonho dorme-se,
a boca fala veracidade.
Vemos-nos,
falamos sombrios,
amamos-nos como papoula e memória ,
adormecemos como vinho nas conchas ,
Estamos abraçados à janela , vêem-nos da rua :
é tempo de saber !
é tempo da pedra se preparar para florescer
É tempo de ser tempo .
É tempo .
"Amamo-nos como papoula e memória"
Ingeborg Bachmann e Paul Celan apaixonam-se, na primavera de 1948, em Viena, onde passam dois meses juntos. “Meu quarto parece um campo de papoulas, ele me presenteia inúmeros ramos dessa flor”, escreve Bachmann à sua mãe, “conheci o poeta surrealista Paul Celan e ele está maravilhosamente apaixonado por mim”.
Celan, com 27 anos, estava de passagem em Viena. Judeu perseguido e traumatizado (os pais mortos em um campo de concentração), tinha acabado de fugir de Bucareste (onde exercia trabalhos forçados), arriscando a vida, e trazia na precária bagagem alguns valiosos poemas e uma recomendação de Alfred Margul-Sperber. Em um curto espaço de tempo foram publicados dezessete poemas na revista “Plan”, do editor Otto Basil. O poema “Todesfuge” (Fuga da Morte) - um dos mais representativos da época pós-guerra, já tinha sido publicado em uma revista literária, em Bucareste.
Bachmann tinha 21 anos e terminava os estudos de filosofia escrevendo a tese sobre Martin Heidegger. Conheceram-se no apartamento da artista Edgar Jené e logo se sentiram reciprocamente atraídos. O par freqüentava o Café Raimund junto com outros intelectuais instigados pelo escritor e crítico teatral, Hans Weigel, famoso por apoiar e incentivar novos autores e com quem Bachamann também possuía um caso.
As experiências pessoais e a reflexão sobre a História transgrediriam nos quase vinte anos de diálogo epistolar. Herzzeit (Tempo do coração, 2008) é o título da publicação, da editora Suhrkamp, da correspondência entre Ingeborg Bachmann (1926-1973) e Paul Celan (1920-1970), e uma sensação no meio literário. Era o testemunho que faltava para completar a trajetória de um complexo relacionamento amoroso que influenciou a criação poética de ambos, e que representou os conflitos existenciais de toda uma geração após o Holocausto, implicando ora na renegação ora na conscientização da culpa, e na confrontação da vítima com o culpado.
Do ímpeto desta ambígua paixão nasceu um dos poemas mais belos da língua alemã, “Corona”, que aparece na primeira coletânea de Paul Celan, Papoula e Memória, a qual seria publicada quatro anos mais tarde. Passados os dois meses em Viena, Celan viaja a Paris, Bachmann permanece na cidade e assim inicia-se uma troca de cartas prolongando-se até 1967, interceptada por algumas crises, atingindo um total de 86 cartas. O livro também inclui a correspondência entre Ingeborg Bachmann com a esposa de Celan, Gisèle Celan-Lestrange, e de Paul Celan com o autor Max Frisch, amante de Bachmann, de cuja convivência surgiu o romance, Malina, fechando assim a constelação das personalidades que circundaram este relacionamento.
De Ingeborg para Paul Celan, Viena, 24.06.1949:
Querido,
porque eu nada esperava, hoje, de manhã – o ano passado também foi assim – teu cartão chegou alado acertar o meio do meu coração, sim foi assim, eu te amo, nunca o disse naquela época. A papoula senti-a novamente, profunda, muito profundamente, tu a fizeste aparecer em um maravilhoso toque de mágica, não poderei esquecer jamais.
Às vezes não quero nada, a não ser ir embora, ir a Paris, sentir como tu tocas minhas mãos, como me tocas inteira com flores e depois novamente não saber de onde tu vens e para onde vais.
Para mim tu vens da Índia ou de um outro país mais distante, obscuro, recôndito, para mim tu és deserto e mar e tudo o que é mistério. Ainda não sei nada sobre ti e muitas vezes tenho medo por ti, não consigo imaginar que tu possas fazer outras coisas diferentes do que fazíamos aqui. Eu deveria possuir um castelo para nós e te buscar para que venhas a ser o meu senhor enfeitiçado, teremos muitos tapetes e música e inventaremos o amor.
Pensei muitas vezes, “Corona” é o teu poema mais belo, é o resgate perfeito de um instante, em que tudo se transforma em mármore e para sempre. Mas para mim aqui não será “tempo”. Anseio alguma coisa a qual não alcançarei, tudo é aluído e insípido, esmaecido e gasto antes de ser usado.
Em meados de agosto pretendo ir a Paris, somente alguns dias. Não me perguntes por que, para que, mas esteja lá para mim, uma noite inteira ou duas, três… Leve-me ao Senna, contemplá-lo-emos tanto tempo até nos tornamos pequenos peixes e assim voltarmos a reconhecer-nos.
Ingeborg
A Viena daquela época era, entretanto, uma cidade cheia de escombros, dividida em zonas controladas pelos ingleses, russos, americanos e franceses, mas que lentamente se recuperava dos estragos da guerra e retornava à vitalidade de outrora. Ademais possuía tradicionalmente um grande número de judeus e nunca deixou de ser a cidade da música e da literatura, de Hugo von Hofmannsthal, Sigmund Freud, Karl Kraus e Arthur Schnitzler.
“O jardim de Viena”, o “Stadtpark”, a “Sombra”, a “Janela”, são reminiscências que seriam novamente evocadas em um capítulo de Malina: “Tranqüilize-se, pense no Stadtpark, pense na folha, pense no Jardim de Viena, em nossa árvore, a paulównia floresce. Tranqüilizo-me imediatamente, pois a nós dois se passou o mesmo.”
De Paul Celan para Ingeborg Bachmann, Paris, 26.1.1949:
Ingeborg,
Tente esquecer por todo um instante que eu por tanto tempo e insistentemente silenciei – tive muitas preocupações, mais do que o meu irmão de novo poderia me aliviar, meu bom irmão, cuja casa tu certamente não terás esquecido. Me escrevas como se escrevesses para ele, para ele, que sempre pensa em ti e guardou em teu medalhão a folha que tu havias perdido.
Não me deixes, não o deixe esperar!
Eu te abraço
Paul
As atrocidades da perseguição e morte de mais de seis milhões de judeus - o Shoah - deixariam profundas e indeléveis marcas na vida do judeu sobrevivente. A carta revela a dualidade desse espírito: um eu que pensa na amada constantemente e outro eu contido de permanente angústia e perturbações.
A tão desejada viagem de Bachmann a Paris demoraria alguns meses, a primeira marcada para junho de 1950, seria adiada por causa de uma crise de nervos. A carência financeira da estudante também a limitava na realização de seus planos. Somente no outono Bachmann viaja a Paris na esperança de uma vida ao lado do amado.
De Paul Celan para Ingeborg Bachmann, Paris, 20.08.1949:
Minha querida Ingborg,
Vens então daqui há dois meses - por que? Tu não dizes, não dizes também por quanto tempo, não dizes se recebeste a tua bolsa. Neste ínterim tu sugeres que poderemos, “trocar cartas”. Sabes, Ingeborg, porque eu durante estes últimos anos escrevi tão pouco? Não somente porque Paris me encurralou em um profundo silêncio, do qual não consegui me libertar de novo, porque eu não sabia o que tu pensas sobre estas curtas semanas em Viena. O que eu poderia concluir sobre as tuas primeiras, furtivas, frases esboçadas, Ingeborg?
Talvez eu esteja enganado, talvez seja isso mesmo, nos desviamos um do outro justamente onde gostaríamos de nos encontrar, talvez a culpa esteja em nós dois. Apenas penso às vezes, que o meu silêncio é mais compreensivo do que o teu, porque o sombrio, que está em mim, é mais antigo.
Sabes: as grandes decisões precisamos sempre tomar sozinhos. Quando esta carta chegou, na qual me perguntas, se tu deves escolher Paris ou os Estados Unidos, eu te diria com prazer, como eu me alegraria, se viesses. Podes entender, Ingeborg, porque eu não disse? Penso que se realmente é importante para ti (significa, mais do que qualquer coisa), viver na cidade em que eu vivo, não terias pedido meu conselho, pelo contrário.
Um longo ano findou-se, um ano, no qual muitas coisas devem ter te acontecido. Mas tu não me dizes quão distante está o nosso maio e junho atrás deste ano.
Quão distante ou o quão perto tu estás, Ingeborg? Digas,para que eu saiba, se tu fechas os olhos quando eu te beijo agora.
Paul
Paralelamente, a comunicação realizou-se também através de telefonemas. A correspondência era um reforço, às vezes, um melhor esclarecimento daquilo que havia sido dito por telefone, mas acima de tudo era o meio essencial e autêntico que dois poetas buscaram para se relacionarem.
Ingeborg Bachmann para Paul Celan, Viena, 24.11.1949:
Querido, querido Paul,
agora chegamos em novembro. Minha carta, a qual escrevi em agosto, ainda está aqui - tudo é tão triste. Talvez a esperaste. Tu hoje a receberias ainda?
Sinto que falo pouco, que não posso te ajudar. Eu precisaria ir até aí, te ver, te livrar das preocupações, te beijar e te segurar, para que tu não partas. Por favor, acredite, que eu estarei aí um dia e te buscarei. Vejo com muito medo, como te perdes nesse vasto mar, mas quero construir um barco e te salvar do sentimento de perda. Precisas apenas ajudar a ti mesmo também e não me dificultar tanto. O tempo, e muitas outras coisas, estão contra nós, mas não devem destruir aquilo que queremos salvar dele.
Me escrevas breve, por favor, e escrevas se queres ainda mais uma palavra minha, se ainda podes receber o meu carinho e o meu amor, se eu posso te ajudar, se às vezes ainda te agarras em mim e me escureces com o sonho pesado, no qual eu quero ser luz.
Tente me escreveres, me escrevas, me perguntes, coloques tudo para fora o que te incomoda.
Estou profundamente ao teu lado
Tua Ingeborg
O inexcedível suspense entre a filha de um nazista e um refugiado judeu, entretanto, impediria uma convivência cotidiana. Celan era atormentado pelo trauma do regime nacional-socialista, principalmente pela morte dos pais no campo de concentração, “tenho que me lançar no meu abismo diariamente”. Em uma carta de Bachmann a Celan, não enviada, lê-se: “Tu queres ser vítima, realmente acredito que a grande infelicidade está dentro de ti mesmo.” No poema, No Egito, datado em agosto de 1948, dedicado a Bachmann, em homenagem ao vigésimo segundo aniversário da amiga e que abre o livro de correspondência, nos versos: “deves evocar da água: Ruth! Noemi! Miriam! / Deves enfeitá-las, quando dormires ao lado do Estranho (…) Deves dizer a Ruth e Miriam e Noemi! / Vejam, eu durmo com ele!”, - os nomes são das judias na oração de Moisés, o Egito era o país do exílio dos judeus e Paul Celan, um judeu refugiado de Czernowitz. O Estranho era incorporado na imagem da amiga não-judia.
A memória do passado sinistro nunca deixará de ser um espaço intransponível entre eles, um espaço onde jamais serão capazes de se encontrarem. Bachmann regressa passado apenas um mês, e depois de um período de silêncio, escreve-lhe: “ainda sabes que mesmo assim fomos muito felizes um com o outro, mesmo nas horas mais difíceis, quando fomos nossos piores inimigos? Por que nunca me escreveste? Por que não sentes mais que eu ainda quero ir ao teu encontro, com o meu coração louco e confuso e contraditório, que às vezes ainda luta contra ti? Começo a entender lentamente porque lutei tanto contra ti, por que não deixarei de lutar. Eu te amo e não quero te amar – hoje te digo mesmo correndo o risco de que não me ouças mais ou que não queiras mais me ouvir.”
Ou ainda este trecho extraído da carta de Celan em que as “pressuposições” traçam alguns contornos à inerente amargura do poeta: “tu tiveste mais da vida do que a maioria da tua geração. Nenhuma das portas te permaneceu fechada, e sempre te abre uma nova. Tu não tens nenhum motivo para ser impaciente, Ingeborg, e se eu puder te pronunciar um pedido, seria este: pense na rapidez em que tudo te é oferecido. E seja um pouco econômica nas tuas exigências.”
Entretanto, provavelmente não seria apenas este o motivo que originou o precipício existente entre eles. A atração e a recusa poderiam ser originárias também do conflito interior do fruir estético infenso à vida prática e rotineira, e a discrepância entre um homem poeta e uma mulher poeta no meio literário dominado pelos homens. Bachmann procurava dar a sua opinião sobre os poemas do amigo. Celan, por sua vez, abstinha-se de fazer comentários.
Mais uma vez ela tenta se aproximar do jovem Celan de forma definitiva poucos meses antes do casamento dele com Gisèle de Lestrange: “aceitei um emprego em uma transmissora de rádio, para nós”, esse “para nós” significava uma condição financeira melhor que os possibilitariam de viver juntos. Entretanto, Celan encontrava-se envolvido com Gisèle e recusa a proposta. E nesta época Bachmann começa a ordenar os poemas que configurariam a coletânea Die gestundete Zeit, publicada em 1953, em português: “O tempo adiado” ou “O Tempo aprazado” (como na tradução do português João Barroso), - segundo o biógrafo alemão Hans Höller, o título é uma alusão a uma passagem de Heidegger, em Ser e Tempo, referindo-se à Aristóteles: “o tempo contato.” Porém, também poderia ser uma alusão ao poema Corona, “É tempo de se ser tempo / É tempo”, pois os poemas dessa coletânea estão repletos de citações e alusões da relação, desembocando na vã tentativa da autora de resgatar aquela primavera, a segurança e o romantismo que os envolveram naquelas primeiras semanas. Em uma das cartas Bachmann menciona: “não posso viver como eu vivia desde que voltei de Paris, desaprendi a experimentar com a vida.“
Tornaram a se encontrar por ocasião da conferência do Grupo 47, em maio de 1952, em Niendorf, no Mar Báltico. Bachmann insiste com Celan para ler o Fuga da Morte. A leitura, entretanto, não foi bem recebida pelo grupo, a voz baixa e a expressão corporal apática do poeta foram comparadas às de Goebbels, justamente com as de um nazista. O grupo riu enquanto Celan lia “leite negro da madrugada nós o bebemos de noite/ nós o bebemos ao meio-dia e de manhã nós o bebemos de noite / nós o bebemos bebemos / cavamos um túmulo nos ares lá não se jaz apertado.” Nas discussões do grupo Bachmann e Celan foram colocados um contra o outro, e a conseqüência não poderia ser diferente: as cartas se calaram - por cinco anos.
Em novembro de 1952, Bachmann conhece o jovem compositor Hans Werner Henzel e com ele parte para a Itália, lá vivem, em Forio, na ilha de Ischia, por quatro longos e descontraídos anos. Apesar da relação fraternal (Henzel era homossexual), chegaram a cogitar em casamento, como forma de segurança no meio social e em uma relação sem os arrebatamentos do amor carnal. Mas não chegaram a concretizar o intento e Bachmann retorna a Alemanha.
Após o longo silêncio a paixão reacendeu com mais ímpeto ao se reencontrarem, de forma inesperada e casualmente, na conferência de Wuppertal, em 1957. No final da conferência os amantes alugam um quarto de hotel, em Colônia, no endereço Am Hof, e desta noite originou o poema: Colônia, Am Hof (Köln, Am Hof), de Paul Celan.
Tempo do coração, vale
os sonhadores no lugar
dos ponteiros da meia-noite
alguns falam no silêncio, alguns se calam
alguns seguiram seu caminho
banidos e perdidos
estavam em casa
vós, catedrais
vós, catedrais não vistas
vós, rios inaudíveis
vós, relógios intrínsecos em nós.
A nova fase do relacionamento é uma fonte de inspiração para Celan que envia-lhe poemas e cartas ardorosas quase todos os dias. Neste ínterim, Ingeborg Bachmann vive em Munique. “Posso entender, Ingeborg, que não me escrevas, não possas escrever, não escreverás: estou dificultando as coisas para ti com as minhas cartas e poemas, dificultando mais ainda do que até agora. Me digas somente isto: devo te escrever e te enviar poemas? devo ir a Munique (ou para outro lugar) por alguns dias? Precisas entender: não consigo agir diferente. Se eu tivesse agido diferente, teria significado que te nego – isto não consigo. Fique tranqüila e não fumes muito! Paul!”
Entretanto, Celan era agora um homem casado e pai de um filho. “Paul! Há dez dias recebi a tua carta. Desde então quero te responder todos os dias e deixo de fazê-lo depois da longa e desesperada conversa contigo. Qual abreviação devo usar na carta? Me entenderás mesmo assim? Te agradeço por ter revelado tudo à tua esposa.”
Ao tomar conhecimento da amante, Gisèle Celan-Lestrange escreve a Bachmann: “Minha querida, Ingeborg. Hoje à noite li, pela primeira vez, os teus poemas. Eles me abalaram. Compreendi muito através deles e envergonho-me da reação que tive, quando Paul voltou pra ti.” Essa aceitação e compreensão fragilizaram a amante de forma decisiva e Bachmannn escreve a Celan: “Mas imaginas, o que a aceitação e a compreensão dela significam para mim? E para ti? Tu não deves deixar a tua esposa e o teu filho.”
Em julho de 1958, Ingeborg Bachmannn e Gisèle Celan-Lestrange finalmente se conhecem pessoalmente, a partir daí inicia-se uma esporádica troca de correspondência entre elas. No dia seguinte Bachmann conhece Marx Frisch.
Paul Celan continua casado com Gisèle e visita Bachmann várias vezes, em segredo, enquanto a poeta realiza leituras pela Alemanha. Aqui o relacionamento atinge o auge com todo o seu estado de exaltação. Na carta que Celan envia a Bachmann o sentimento é de ansiedade: “irei a Munique (…) Não sei o que tudo isso significa, não sei como devo chamá-lo, defini-lo, talvez, destino e missão, procurar um nome não tem sentido, eu sei que é assim, para sempre. Também sinto como tu: que posso pronunciar e escrever o teu nome sem ter que lutar com um arrepio que me abate, para mim isto é, apesar de tudo, uma felicidade. Também sabes, tu foste, quando eu te encontrei, ambos para mim: o erótico e o espiritual. Isto não pode ser nunca separado, Ingeborg. Pense No Egito. Todas as vezes que o leio, te vejo neste poema.”
O que se sucede nesta seqüência é o declínio de uma relação amorosa que já estava desde o início condenada a malograr. Paul Celan é novamente acusado de plágio por Claire Goll, viúva do famoso dramaturgo e também poeta Yvan Goll. Ele havia conhecido o casal em Paris, em 1949, e naquela época traduziu alguns poemas de Goll. A primeira tentativa de calúnia surgiu em 1953 e culminou, em 1960, desencadeando uma série de transtornos psíquicos que levou o poeta à internação diversas vezes em clínicas psiquiátricas. O chamado “caso Goll” fez irromper o trauma do qual Celan sofria, como se “todo ele fosse permanentemente uma ferida aberta”, mencionou o poeta Émile Cioran. A difamação saiu também em alguns jornais renomados, e neste mesmo período o crítico alemão Günter Blöcker, escreve uma resenha negativa sobre a coletânea Sprachgitter (Grades da palavra), no jornal Tagesspiegel, agravando mais ainda a paranóia irreversível de Celan.
Não é de se negar completamente a existência de uma determinada tendência ao anti-semitismo submersa neste meio. Em outubro deste mesmo ano, 1960, Paul Celan ganha o prêmio mais prestigiado da língua alemã, o Georg-Büchner. Bachmann irá ganhá-lo quatro anos mais tarde. Apesar de tudo sentia-se perseguido e não reconhecido pela crítica, buscando desesperadamente aliados entre os amigos, principalmente junto a Bachmann que vivia agora com autor Max Frisch. Celan apela aos amigos no sentido de se manifestarem publicamente a seu favor. Também escreve a Marx Frisch que não compartilha das preocupações do amigo e até mesmo o ofende insinuando vaidade e ambição de escritor.
Em apenas oito anos Paul Celan tornou-se um poeta reconhecido no meio literário, recebia convites para lecionar em universidades alemãs e francesas, possuía um filho e uma esposa que o amava e o apoiava muito. Em uma carta a Bachmann Gisèle Celan-Lestrange escreve: “Paul está desesperado. Paul está esgotado. Ele não vai bem, ele não possui mais nenhuma coragem. Por favor, telefone para ele, se soubesses como ele se sente solitário, infeliz e completamente destruído pelo que lhe aconteceu. Eu te imploro, faças tudo o que puderes para que suceda alguma coisa positiva o mais rápido possível. Não o deixe sem notícia.” Nada colaborou para melhorar a angústia que recrudescia dentro do poeta, o trauma e o desespero, as crises de delírio, as alucinações e mania de perseguição, levaram-no ao suicídio em abril de 1970, nas águas do Senna.
Em 1958, Bachmann conheceu Marx Frisch em Paris, contudo, ainda emocionalmente envolvida com Paul Celan, - “o outono de outrora invade este outono”, - quase sucumbe na relação com o egocêntrico escritor que perdurou quatro anos. Em 1960, Frisch e Bachmann vão morar juntos e dois anos mais tarde o namoro é interrompido. Max Frisch publica então o romance, “Meu nome é Gantenbein”. Bachmann se reconhece na figura da protagonista e sente-se profundamente atingida e traída, resultando em várias crises de nervos e estadias em clínicas. No famoso discurso de agradecimento ela fala sobre a condição do indivíduo impulsionado à loucura: “de escrever ninguém fica louco, mas sim, como qualquer outra pessoa que não seja escritor, fica louco com a usurpação, com a violência, com a pura brutalidade, com a perda de sua honra, com a ameaça de sua existência.”
Em um capítulo de Malina lê-se: “Minha vida acabou, pois ele afogou-se com o transporte no rio, ele era a minha vida. Eu o amei mais do que a minha vida.” Ingeborg Bachmann falece três anos apenas após a morte de Paul Celan.
A importância do papel que Ingeborg Bachmann possuía na vida de Paul Celan, e vice-versa, era indiscutível, mas até que ponto a influência mútua interferiu na criação literária de ambos era um ponto difuso em suas biografias, a correspondência revela muitos aspectos que serviram como fonte de pressupostos diversos e abre novos caminhos para a interpretação.
Ingeborg Bachmann para Paul Celan, Viena, final de maio/início de junho 1949 (?), esboço de carta interrompido:
Paul, querido Paul,
Tenho saudade de ti e de nosso conto de fadas. O que devo fazer? Estás tão longe de mim e o teu cartão com o qual me dei por satisfeita não me basta mais.
Ontem recebi, através do Klaus Demus, poemas teus que eu não conhecia, também três da última fase. Não posso quase suportar que foi através deste caminho que chegaram até mim. Por favor, por favor, não permitas isso. Precisa haver alguma coisa também para mim.
Posso lê-los melhor do que os outros, porque te encontro neles desde que não há mais a travessa Beatrixgasse. Sempre es tu que me es importante, reflito muito sobre isso e falo contigo e pego tua estranha, escura cabeça entre as minhas mãos e queria te arrancar a pedra do peito, libertar tuas mãos com os cravos e te ouvir cantar. Não houve mais nada que te aconteceste que me fizesse pensar intensivamente em ti. Tudo continua como sempre, tenho trabalho e sucesso, homens estão de alguma maneira à minha volta, mas significam pouco: Tu, o belo e o triste os espalhas em meio aos dias disseminados.
Paul Celan para Ingeborg Bachamann, Paris, 20.6.1949:
Paris, am 20. Juni 49.
Ingeborg,
“inexato” e tarde chego este ano. Mas talvez somente porque eu queria que ninguém, além de ti, estivesse presente quando eu colocar as papoulas, muitas papoulas, e memória, tanto quanto muita memória, dois grandes ramos viçosos, em cima da mesa de teu aniversário. Desde semanas me alegro com este instante.
Paul
domingo, 23 de outubro de 2011
Chicago
The seeds are planted here
But they won’t grow
We won’t have to say goodbye
If we all go
Maybe things will be better in Chicago
To leave all we’ve ever known
For a place we’ve never seen
Maybe things will be better in Chicago
Well It’s braver to stay
Even braver to go
Wherever she goes I go
Maybe things will be better in Chicago
What we need the lord will give us
All we want we carry with us
You know where I can be found
Where the rainbow hits the ground
I’m not alone
I’m not afraid
This bird has flown from his cage
There’s so much magic we have known
On this sapphire we call home
With my coat and my hat
I say goodbye to all that
Maybe things will be better in Chicago
Maybe things will be better in Chicago
Tom waits - Bad As Me (2011)
Tom Waits: vocal,banjo,piano,guitar,percussion
Larry Taylor: guitar,bass
Marc Ribot: guitar
Keith Richards: guitar
Casey Waits: drums
Clint Maedgen: saxes
Ben Jaffe: trombone,bass clarinet
Charlie Musselwhite: harmonica
sábado, 22 de outubro de 2011
Poema
Ouvi falar de um homem
que dizia palavras com tal beleza
que bastava ele pronunciar os nomes
e as mulheres se entregavam a ele.
Se estou mudo diante de seu corpo
enquanto o silêncio floresce como tumores em nossos lábios
é porque ouço um homem subir as escadas
e limpar a garganta atrás de nossa porta.
(Leonard Cohen)
que dizia palavras com tal beleza
que bastava ele pronunciar os nomes
e as mulheres se entregavam a ele.
Se estou mudo diante de seu corpo
enquanto o silêncio floresce como tumores em nossos lábios
é porque ouço um homem subir as escadas
e limpar a garganta atrás de nossa porta.
(Leonard Cohen)
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
VIRAÇÃO s.f: aragem ou vento fresco e suave que costuma soprar à tarde do mar para a terra.
Vaga madrugada
devaneios incompletos
repletos de interior a exterior
invadem um vasto oceano estendido
A grande queda ao fim
com cataratas aéreas-submersas
reflete outras tantas vidas
Uma forte propensão à irrealidade
dança de cima à baixo
inclinada sobre o azul-marinho
Ancorados sem tocar o fundo
soltos no manto do sopro
o rumor da palavra
dor
o brilho da palavra
viragem
devaneios incompletos
repletos de interior a exterior
invadem um vasto oceano estendido
A grande queda ao fim
com cataratas aéreas-submersas
reflete outras tantas vidas
Uma forte propensão à irrealidade
dança de cima à baixo
inclinada sobre o azul-marinho
Ancorados sem tocar o fundo
soltos no manto do sopro
o rumor da palavra
dor
o brilho da palavra
viragem
Drama
agora ar é ar e coisa é coisa: traço
nenhum da terra celestial seduz
nossos olhos sem ênfase onde luz
a verdade magnífica do espaço.
Montanhas são montanhas; céus são céus -
e uma tal liberdade nos aquece
que é como se o universo uno, sem véus,
total, de nós (somente nós) viesse
- sim; como se, despertas do torpor
do verão, nossas almas mergulhassem
no branco sono onde se irá depor
toda a curiosidade deste mundo
(com júbilo de amor) imortal e a coragem
de receber do tempo o sonho mais profundo
nenhum da terra celestial seduz
nossos olhos sem ênfase onde luz
a verdade magnífica do espaço.
Montanhas são montanhas; céus são céus -
e uma tal liberdade nos aquece
que é como se o universo uno, sem véus,
total, de nós (somente nós) viesse
- sim; como se, despertas do torpor
do verão, nossas almas mergulhassem
no branco sono onde se irá depor
toda a curiosidade deste mundo
(com júbilo de amor) imortal e a coragem
de receber do tempo o sonho mais profundo
ela cuida de toda agonia mortal. ela intercede pela humanidade.
um riso sem um
rosto (um olhar
sem um eu)
cuida
rosto (um olhar
sem um eu)
cuida
do (não to
que) ou
desaparec
erá sem ru
que) ou
desaparec
erá sem ru
ído (na doce
terra) &
ninguém
(inclusive nós
terra) &
ninguém
(inclusive nós
mesmos)
relem
brará
(por uma fra
relem
brará
(por uma fra
ção de
um mo
mento)onde
o que como
um mo
mento)onde
o que como
por que qual
quem
(ou qualquer coisa)
Mon Amour Mon Ami
Toi mon amour, mon ami
Quand je rêve c'est de toi
Mon amour, mon ami
Quand je chante c'est pour toi
Mon amour, mon ami
Je ne peux vivre sans toi
Mon amour, mon ami
Et je ne sais pas pourquoi
Je n'ai pas connu d'autre garçon que toi
Si j'en ai connu je ne m'en souviens pas
A quoi bon chercher faire des comparaisons
J'ai un cœur qui sait quand il a raison
Et puisqu'il a pris ton nom
Toi mon amour, mon ami
Quand je rêve c'est de toi
Mon amour, mon ami
Quand je chante c'est pour toi
Mon amour, mon ami
Je ne peux vivre sans toi
Mon amour, mon ami
Et je sais très bien pourquoi
On ne sait jamais jusqu'où ira l'amour
Et moi qui croyais pouvoir t'aimer toujours
Oui je t'ai quitté et j'ai beau résister
Je chante parfois à d'autres que toi
Un peu moins bien chaque fois
Toi mon amour, mon ami
Quand je rêve c'est de toi
Mon amour, mon ami
Quand je chante c'est pour toi
Mon amour, mon ami
Je ne peux vivre sans toi
Mon amour, mon ami
Et je ne sais pas pourquoi
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Máximo de Felicidade no Máximo de Lucidez
O que é a sabedoria? É a felicidade na verdade, ou «a alegria que nasce da verdade». Esta é a expressão que Santo Agostinho utiliza para definir a beatitude, a vida verdadeiramente feliz, em oposição ás nossas pequenas felicidades, sempre mais ou menos factícias ou ilusórias. Sou sensível ao facto de que é a mesma palavra beatitude que Espinoza retomará, bem mais tarde, para designar a felicidade do sábio, a felicidade que não é a recompensa da virtude mas a própria virtude... a beatitude é a felicidade do sábio, em oposição às felicidades que nós, que não somos sábios, conhecemos comumente, ou, digamos, às nossas aparências de felicidade, que às vezes são alimentadas por drogas ou álcoois, muitas vezes por ilusões, diversão ou má-fé. Pequenas mentiras, pequenos derivativos, remedinhos, estimulantezinhos... não sejamos severos demais. Nem sempre podemos dispensá-los. Mas a sabedoria é outra coisa. A sabedoria seria a felicidade na verdade.
A sabedoria? É uma felicidade verdadeira ou uma verdade feliz. Não façamos disso um absoluto, porém. Podemos ser mais ou menos sábios, do mesmo modo que podemos ser mais ou menos loucos. Digamos que a sabedoria aponta para uma direcção: a do máximo de felicidade no máximo de lucidez.
André Compte-Sponville, in 'A Felicidade, Desesperadamente'
A sabedoria? É uma felicidade verdadeira ou uma verdade feliz. Não façamos disso um absoluto, porém. Podemos ser mais ou menos sábios, do mesmo modo que podemos ser mais ou menos loucos. Digamos que a sabedoria aponta para uma direcção: a do máximo de felicidade no máximo de lucidez.
André Compte-Sponville, in 'A Felicidade, Desesperadamente'
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Para Ocasião da Partida do Irmão Querido
J. S. Bach: Capriccio sopra la lontananza del fratello dilettissimo (BWV 992)
Por "programática" se entende a obras compostas sobre uma narrativa prévia, tendo como seu oposto a noção de "música pura".
Considerada a única obra "programática" de Bach, esse capricho para cravo foi composto durante sua juventude em Arnstadt, por volta de 1704, em função da partida do irmão mais velho, Johann Christoph, que deixara o povoado de Lünenburg para trabalhar na orquestra da corte do rei suíço. O irmão, músico trompetista, exercera forte influência no jovem Bach, sendo responsável por boa parte da orientação e manutenção do compositor.
1.Arioso (Adagio): Ist eine Schmeichelung der Freunde, um denselben von seiner Reise abzuhalten (His friends try to persuade him not to undertake the journey
2.Andante: Ist eine Vorstellung unterschiedlicher Casuum, die ihm in der Fremde konnten vorfallen (They tell him of the various misfortunes that may befall him abroad)
3.Adagiosissimo: Ist ein allgemeines Lamento der Freunde (The general lament of his friends)
4.Allhier kommen die Freunde (weil sie doch sehen, daß es sanders nicht sein kann) und nehmen Abschied (His friends come, since they see that it must be, and take leave of him)
5.Allegro poco: Aria di Postiglione
6.Fuga all' imitatione della cornetta di Postiglione
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Dedicatória do autor
"Pois que dedico esta coisa aí ao antigo Schumann e sua doce Clara que são hoje ossos, ai de nós. Dedico-me à cor rubra e escarlate como o meu sangue de homem em plena idade e portanto dedico-me a meu sangue. Dedico-me sobretudo aos gnomos, anões, sílfides e ninfas que habitam a vida. Dedico-me à saudade de minha antiga pobreza, quando tudo era mais sóbrio e digno e eu nunca havia comido lagosta. Dedico-me à tempestade de Beethoven. À vibração das cores neutras de Bach. A Chopin que me amolece os ossos. A Stravinsky que me espantou e com quem voei em fogo. À “Morte e Transfiguração” em Richard Strauss me revela um destino? Sobretudo dedico-me às vésperas de hoje e a hoje, ao transparente véu de Debussy, a Marlos Nobre, a Prokofief, a Carl Orff, a Schönberg, aos dodecafônicos, aos gritos rascantes dos eletrônicos – a todos esse que em mim atingiram zonas assustadoramente inesperadas, todos esses profetas do presente e que a mim me vaticinaram e a mim mesmo a ponto de eu nesse instante explodir em: eu. Esse eu que é vós pois não agüento ser apenas mim, preciso dos outros para me manter de pé, tão tonto que sou, eu enviesado, enfim que é que se há de fazer senão meditar para cair naquele vazio que só se atinge com a meditação. Meditação não precisa de ter resultados: a meditação pode ter como fim apenas ela mesma. Eu medito sem palavras e sobre o nada. O que me atrapalha a vida é escrever.
E – e não esquecer que a estrutura do átomo não é vista mas sabe-se dela. Sei de muita coisa que não vi. E vós também. Não se pode dar uma prova da existência do que é mais verdadeiro, o jeito é acreditar. Acreditar chorando.
Esta história acontece em estado de emergência e calamidade pública. Trata-se de livro inacabado porque lhe falta a resposta. Resposta esta que espero que alguém no mundo me dê? Vós? É uma história em tecnicolor para ter algum luxo, por Deus, que eu também preciso. Amém para nós todos."
Clarice Linspector
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Teoria sentada
Um lento prazer esgota a minha voz. Quem
canta empobrece nas frementes cidades
revividas. Empobrece com a alegria
por onde se conduz, e então é doce
e mortal. Um lento
prazer de escrever, imitando
cantar. E vendo a voz disposta
nos seus sinais, revelada entre a humidade
dos corpos e a sua
glória secular. Uma dor esgota
a idade, com cravos, da minha voz.
E eu escrevo como quem imita uma vida e a vida
de uma inconcebível
magnitude. Ou somente de uma
voz. Um lento desprazer, uma
solidão verde, ou azul, esgota por dentro e para cima,
como um silêncio, o antigo
de minha voz.
O que digo é rápido, e somente o modo
de sofrer
é lento e lento. É rapidamente fácil e mortal
o que agora digo, e só
as mãos lentamente levantam o álcool
da canção e a formosura
de um tempo absorvido. Digo tudo o que é
mais fácil da vida, e o fácil
é duro e batido pela paciência.
Porque a terra dorme e acorda de uma
para outra estação.
Porque vi crianças alojadas no meus
melhores instantes, e vi
pedaços celestes fulminados na minha
paixão, e vi
textos de sangue marcados desordenadamente
pelo ouro. Porque vi e vi, na saída
de um dia para o começo
da primeira noite, e no despedaçar da noite.
E porque me levantei para sorrir
e ser cândido. E porque então
estremeci com a rapidez das palavras e a quente
morosidade
da vida. Eu disse o que era fácil
para dizer e eu tão
dificilmente havia reconhecido. Porque eu disse:
um prazer, um pesado prazer de cantar
a vida, consome a única voz
de uma vida mais sombria e mais funda.
E eu mudo sobre este campo parado
de cravos, quando a lua
rebenta, quando
sóis e raios crescem para todos os lados do seu
fulminante país.
Alguém se debruça para gritar e ouvir em meus
vales
o eco, e sentir a alegria de sua expressa
existência. Alguém chama por si próprio,
sobre mim, em seus terríficos confins.
E eu tremo de gosto, ardo, consumo
o pensamento, ressuscito
dons esgotados. Escrevo à minha volta,
esquecido de que é fácil, crendo
só no antigo gesto que alarga a solidão contra
a solidão do amor.
Escrevo o que bate em mim - a voz
fria, a alarmada malícia
das vozes, os ecos de alegria e a escuridão
das gargantas lascadas. Para os lados,
como se abrisse, com a doçura de um espelho
infiltrado na sombra. Fiel
como um punhal voltado para o amor
total de quem o empunha.
Alguém se procura dentro de meu ardor
escuro, e reconhece as noites
espantosas do seu próprio silêncio. E eu falo,
e vejo as mudanças e o imóvel
sentido do meu amor, e vejo
minha boca aberta contra minha própria boca
num amargo fundo de vozes
universais.
Alguém procura onde eu estou só, e encontra
o campo desbaratado
e branco da sua
solidão.
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
POEMAS PARA COMBATIR LA CALVICIE
MANIFESTO
Senhoras e senhores
Esta é a nossa última palavra
- Nossa primeira e última palavra –
Os poetas desceram do Olimpo.
Esta é a nossa última palavra
- Nossa primeira e última palavra –
Os poetas desceram do Olimpo.
Para os nossos antepassados
A poesia era um objeto de luxo
Mas para nós
É um artigo de primeira necessidade:
Não podemos viver sem poesia.
A poesia era um objeto de luxo
Mas para nós
É um artigo de primeira necessidade:
Não podemos viver sem poesia.
Diferente de nossos antepassados
- E o digo com todo respeito... –
Nós sustentamos
Que o poeta não é um alquimista
O poeta é um homem como os outros
Um pedreiro que constrói seu muro
Um construtor de portas e janelas.
- E o digo com todo respeito... –
Nós sustentamos
Que o poeta não é um alquimista
O poeta é um homem como os outros
Um pedreiro que constrói seu muro
Um construtor de portas e janelas.
Nós conversamos
Na linguagem de todos os dias
Não acreditamos em signos cabalísticos.
Na linguagem de todos os dias
Não acreditamos em signos cabalísticos.
Ademais, uma coisa:
O poeta está aí
Para que a árvore não cresça torcida.
O poeta está aí
Para que a árvore não cresça torcida.
Esta é a nossa mensagem.
Nós denunciamos o poeta demiurgo
O poeta Barata
O poeta Rato de Biblioteca.
Todos estes senhores
- E o digo com muito respeito...-
Devem ser processados e julgados
Por construírem castelos no ar
Por esbanjarem o espaço e o tempo
Redigindo sonetos à lua
Por agruparem palavras ao azar
Conforme a última moda em Paris.
Para nós, não:
O pensamento não nasce na boca
Nasce no coração do coração.
Nós denunciamos o poeta demiurgo
O poeta Barata
O poeta Rato de Biblioteca.
Todos estes senhores
- E o digo com muito respeito...-
Devem ser processados e julgados
Por construírem castelos no ar
Por esbanjarem o espaço e o tempo
Redigindo sonetos à lua
Por agruparem palavras ao azar
Conforme a última moda em Paris.
Para nós, não:
O pensamento não nasce na boca
Nasce no coração do coração.
Nós repudiamos
A poesia de óculos escuros
A poesia de capa e espada
A poesia de chapéu abanado.
Propiciamos a mudança
A poesia a olho nu
A poesia a peito aberto
A cabeça de cabeça descoberta.
A poesia de óculos escuros
A poesia de capa e espada
A poesia de chapéu abanado.
Propiciamos a mudança
A poesia a olho nu
A poesia a peito aberto
A cabeça de cabeça descoberta.
Não acreditamos em ninfas nem tritões.
A poesia tem que ser assim:
Uma garota rodeada de espigas
Ou não ser absolutamente nada.
A poesia tem que ser assim:
Uma garota rodeada de espigas
Ou não ser absolutamente nada.
Porém, no plano político
Eles, nossos avós imediatos,
Nossos bons avós imediatos!
Refrataram e se dispersaram
Ao passarem pelo prisma do cristal.
Uns poucos se tornaram comunistas
Não sei se foram realmente.
Suponhamos que foram comunistas,
O que eu sei é o seguinte:
Que não foram poetas populares,
Foram uns reverendos poetas burgueses.
Eles, nossos avós imediatos,
Nossos bons avós imediatos!
Refrataram e se dispersaram
Ao passarem pelo prisma do cristal.
Uns poucos se tornaram comunistas
Não sei se foram realmente.
Suponhamos que foram comunistas,
O que eu sei é o seguinte:
Que não foram poetas populares,
Foram uns reverendos poetas burgueses.
Devemos dizer as coisas como são:
Somente um ou outro
Soube chegar ao coração do povo.
Sempre que puderam
Declararam de palavra e de peito
Somente um ou outro
Soube chegar ao coração do povo.
Sempre que puderam
Declararam de palavra e de peito
Contra a poesia dirigida
Contra a poesia do presente
Contra a poesia proletária.
Contra a poesia do presente
Contra a poesia proletária.
Aceitemos que foram comunistas
Mas a poesia foi um fracasso
Surrealismo de segunda mão
Decadentismo de terceira mão,
Tábuas velhas devolvidas pelo mar.
Poesia adjetiva
Poesia nasal e gutural
Poesia arbitrária
Poesia copiada dos livros
Poesia calcada
Na revolução da palavra
Em circunstâncias de poder fundar-se
Na revolução das idéias.
Poesia do círculo vicioso
Para meia dúzia de eleitos:
“Liberdade absoluta de expressão!”
Mas a poesia foi um fracasso
Surrealismo de segunda mão
Decadentismo de terceira mão,
Tábuas velhas devolvidas pelo mar.
Poesia adjetiva
Poesia nasal e gutural
Poesia arbitrária
Poesia copiada dos livros
Poesia calcada
Na revolução da palavra
Em circunstâncias de poder fundar-se
Na revolução das idéias.
Poesia do círculo vicioso
Para meia dúzia de eleitos:
“Liberdade absoluta de expressão!”
Hoje nos persignamos perguntando
Para que escreviam essas coisas
Para assustar ao pequeno burguês?
Tempo miseravelmente perdido!
O pequeno burguês não reage
Senão quando se trata do estômago.
Para que escreviam essas coisas
Para assustar ao pequeno burguês?
Tempo miseravelmente perdido!
O pequeno burguês não reage
Senão quando se trata do estômago.
Como vão assustá-lo com poesias?!
A situação é a seguinte:
Enquanto eles estavam
Por uma poesia do crepúsculo
Por uma poesia da noite
Nós propugnamos
A poesia do amanhecer.
Esta é a nossa mensagem.
Os resplendores da poesia
Devem chegar a todos por igual
A poesia chega para todos.
A situação é a seguinte:
Enquanto eles estavam
Por uma poesia do crepúsculo
Por uma poesia da noite
Nós propugnamos
A poesia do amanhecer.
Esta é a nossa mensagem.
Os resplendores da poesia
Devem chegar a todos por igual
A poesia chega para todos.
Nada mais, companheiros
Nós condenamos
- E o digo com respeito...-
A poesia do pequeno deus
A poesia da vaca sagrada
A poesia do touro furioso.
Nós condenamos
- E o digo com respeito...-
A poesia do pequeno deus
A poesia da vaca sagrada
A poesia do touro furioso.
Contra a poesia das nuvens
Nós contrapomos
A poesia da terra firme
- Cabeça fria, coração ardente
Somos pés-no-chão decididos...
Nós contrapomos
A poesia da terra firme
- Cabeça fria, coração ardente
Somos pés-no-chão decididos...
Contra poesia de café
A poesia da natureza
Contra a poesia de salão
A poesia de protesto social.
A poesia da natureza
Contra a poesia de salão
A poesia de protesto social.
Os poetas desceram do Olimpo.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
ENTARDECER - K 488 Adagio
É tarde amor
É tarde para ser
Tarde para olhar-te de frente
Tarde para beijar-lhe o rosto no sorriso do tempo
Cá estou acometido por furores abstratos
Cá estou às costas, às tuas
Lançando suspiros de quem dura e sonha
De quem partilha as idades do céu e da terra
E das águas que inundam tudo
Bate e retorna os timbales do adeus
Bate no rosto o toque de tudo que volta
Aquilo que viaja e se enrosca em nós
Aquilo que nos sobrevive e devasta
Levantei minhas pálpebras no fundo da noite
Lancei-me negro a negro em teus olhos
Vi a mulher nua no milagre de todas as coisas
E tu viste em mim a fé consumada
A celebrada certeza
De frágil lume nas mãos
Brindamos o círculo presente
Erguemos os cálices futuros
Falamos dores leves
Calamos dores grandes
E com os dedos crepusculares
Escorregando pelas coxas
Desabamo-nos um sobre o outro
Destino sobre destino
Estremecidos e confundidos
Em camas amarrotadas
E lares estrelados
É quando eclipsamos longas e vastas ofensas ao mundo
Ofensas que abarrotam cidades em declínio
Ao mesmo tempo brutas e suaves
Em repetidas llibações de desespero
Sólidas solidões flutuantes
Rasgos elétricos
E tropeços bêbados
Sou o vento que lhe sopra às costas
Sou quem empurra o facho radiante de tua linguagem
Sou as folhagens que lhe balançam o verão
Sou quem cura a ferida da pedra, a sombra do dia
Sou a pétala adocicada de tua infância
Sou quem pede amor com olhos vazados de nascentes
Sou o dragão dardejante que te enleva a arte
A uma vagarosa mulher no mundo
Que agora amadurece o fruto da idade
Envio este meu presente, poemacto
Enlaço-me em teus cabelos e a ti despetalo
Na tarde do tempo cor de mel
Tarde de menos para dizer que alguém
Em algum lugar no mundo pulsa por ti
E lhe deseja reforços interiores
E terrenos habitáveis do sublime
Invento que é tempo de botões em flor
Tempo de esgotar a amada para ver
Como o amor trabalha na loucura
Tempo de levar a palavra para casa
Tempo de carregar a canção do fim dos tempos
Para as luas plácidas de teus lábios
E para as noites quentes de teu quarto
Reunir, expor e mudar tudo
De novo outra vez lá
No clamor da pele
No estertor dos ossos
No interior do seio
Aí onde vagueia em névoa
Teu mais secreto e álacre
Coração
Que em ti e a mim
Estala
Persistente
É tarde para ser
Tarde para olhar-te de frente
Tarde para beijar-lhe o rosto no sorriso do tempo
Cá estou acometido por furores abstratos
Cá estou às costas, às tuas
Lançando suspiros de quem dura e sonha
De quem partilha as idades do céu e da terra
E das águas que inundam tudo
Bate e retorna os timbales do adeus
Bate no rosto o toque de tudo que volta
Aquilo que viaja e se enrosca em nós
Aquilo que nos sobrevive e devasta
Levantei minhas pálpebras no fundo da noite
Lancei-me negro a negro em teus olhos
Vi a mulher nua no milagre de todas as coisas
E tu viste em mim a fé consumada
A celebrada certeza
De frágil lume nas mãos
Brindamos o círculo presente
Erguemos os cálices futuros
Falamos dores leves
Calamos dores grandes
E com os dedos crepusculares
Escorregando pelas coxas
Desabamo-nos um sobre o outro
Destino sobre destino
Estremecidos e confundidos
Em camas amarrotadas
E lares estrelados
É quando eclipsamos longas e vastas ofensas ao mundo
Ofensas que abarrotam cidades em declínio
Ao mesmo tempo brutas e suaves
Em repetidas llibações de desespero
Sólidas solidões flutuantes
Rasgos elétricos
E tropeços bêbados
Sou o vento que lhe sopra às costas
Sou quem empurra o facho radiante de tua linguagem
Sou as folhagens que lhe balançam o verão
Sou quem cura a ferida da pedra, a sombra do dia
Sou a pétala adocicada de tua infância
Sou quem pede amor com olhos vazados de nascentes
Sou o dragão dardejante que te enleva a arte
A uma vagarosa mulher no mundo
Que agora amadurece o fruto da idade
Envio este meu presente, poemacto
Enlaço-me em teus cabelos e a ti despetalo
Na tarde do tempo cor de mel
Tarde de menos para dizer que alguém
Em algum lugar no mundo pulsa por ti
E lhe deseja reforços interiores
E terrenos habitáveis do sublime
Invento que é tempo de botões em flor
Tempo de esgotar a amada para ver
Como o amor trabalha na loucura
Tempo de levar a palavra para casa
Tempo de carregar a canção do fim dos tempos
Para as luas plácidas de teus lábios
E para as noites quentes de teu quarto
Reunir, expor e mudar tudo
De novo outra vez lá
No clamor da pele
No estertor dos ossos
No interior do seio
Aí onde vagueia em névoa
Teu mais secreto e álacre
Coração
Que em ti e a mim
Estala
Persistente
Silente
Astra
Astra
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Homenagem a John Cage
No ano passado me liga uma dançarina aqui de BH dizendo que precisava de uma trilha sonora para uma performance solo de dança contemporânea. Marcamos um café e na conversa ela me disse que a coreografia seria inspirada nas vanguardas artísticas do séc. XX, com ênfase nos artistas norte-americanos, já que a performance seria apresentada lá. Achei meio esquisito uma brasileira levar para o EUA um trabalho com referências tão diretas aos artistas de lá com o risco da coisa ficar meio insossa e patética. Nos despedimos com o compromisso que ela me ligaria para marcarmos um segundo encontro, quando eu levaria alguma idéia ou proposta. Fui pra casa com o desafio de pensar em alguma coisa...Foi então que me veio à mente figura de John Cage...pelo seu experimentalismo, pela sua interação com outras aéreas artísticas (inclusive a dança), pela sua ruptura estética, seu pensamento e seu interesse pela antropologia e a cultura de outros povos. Foi então que comecei a ler o livro "Silence" de Cage e a ouvir várias gravações de peças dele. Daí comecei a brincar sem compromisso, colando e sobrepondo algumas peças distintas, algumas compostaspara percussão ou voz. Me interessei sobretudo por uma longuissima gravação dos diários de Cage, gravados na voz do próprio compositor. Os diários reúnem reflexões, comentários e apontamentos sobre o mundo, a arte, o processo civilizatório ocidental e oriental etc.. Então me veio a idéia de produzir alguns caleidóscópios sonoros utilizando esses diários-sonoros e intercalá-los com peças para piano preparado que fossem mais "cruas" e "diretas", que tivessem uma sonoridade tímbrica e tratamento musical mais definido para ajudar no trabalho coreográfico.
Essa idéia de caleidoscópio-sonoro feito apartir de colagens foi um recurso bastante experimentado por Cage, como por exemplo a recriação do Finnegans Wake de James Joyce onde Cage utilizou um vasto mosaico de sons e paisagens sonoras. O próprio conceito de colagem não era para Cage nenhum problema, já que a criação no século XX não poderia continuar refém ao tabu e ao culto do autoral e do "original"...
O que aconteceu foi que a bailarina nunca mais me ligou e nada aconteceu.
Em todo caso guardei alguma coisa dessa minha brincadeira e experimentaçãozinha:
Homenagem a John Cage by Francisco Cesar
Essa idéia de caleidoscópio-sonoro feito apartir de colagens foi um recurso bastante experimentado por Cage, como por exemplo a recriação do Finnegans Wake de James Joyce onde Cage utilizou um vasto mosaico de sons e paisagens sonoras. O próprio conceito de colagem não era para Cage nenhum problema, já que a criação no século XX não poderia continuar refém ao tabu e ao culto do autoral e do "original"...
O que aconteceu foi que a bailarina nunca mais me ligou e nada aconteceu.
Em todo caso guardei alguma coisa dessa minha brincadeira e experimentaçãozinha:
Homenagem a John Cage by Francisco Cesar
Vida
VIDA,
a minha, a tua,
eu poderia dizê-la em duas
ou três palavras ou mesmo
numa
corpo
sem falar das amplas
horas iluminadas,
das exceções, das depressões
das missões,
dos canteiros destroçados feito a boca
que disse a esperança
fogo
sem adjetivar a pele
que rodeia a carne
os últimos verões que vivemos
a camisa de hidrogênio
com que a morte copula
(ou a ti, março, rasgado
no esqueleto dos santos)
Poderia escrever na pedra
meu nome
gullar
mas eu não sou uma data nem
uma trave no quadrante solar
Eu escrevo
facho
nos lábios da poeira
lepra
vertigem
cona
qualquer palavra que disfarça
e mostra o corpo esmerilado do tempo
câncer
vento
laranjal.
[Ferreira Gullar - O vil metal, 1954-60]
Vida by Francisco Cesar
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Buenas noches, Che bandoneón
No fim dos anos 70, em Paris, o grande bandoneonista argentino Juan José Mosalini convidou Julio Cortázar para uma pequena participação em seu disco solo. O resultado desse encontro foi um texto curto para a primeira faixa do disco, escrito e gravado na voz do próprio escritor entitulado: "Buenas noches, che bandoneón"
Texto escrito por Julio Cortázar em 1979:
La alianza del bandoneón y el tango nace com nuestro siglo y tiene por escenario la ciudad de Buenos Aires. Instrumento destinado a otros fines musicales en su Alemania natal, el “fuelle” como lo llaman gráficamente los argentinos, se adapto sin el menor esfurzo a una música que hasta entonces se tocaba con otros instrumentos.
Lo más admirable es que a su vez el tango se reconoció por así decirlo en el bandoneón. Em su sonido inconfuntible y sus posibilidades instrumentales, y muy pronto hubo entre ellos una intimidad que jamás se interrumpió que sigue dando una música como la que contiene este disco.
Esa alianza entrañable se tradujo desde el principio por um diálogo que no solamente concernia a la música sino a lãs palabras de los tangos. Los poetas populares comprendieron muy pronto que ele bandoneón contenía la esencia del tango, como tan bien La resumió Julian-Centeya:
Bandoneón castigado, taciturno y doliente,
Voz quejosa y antigua del farol parpadeante...
Todo está dicho aqui em dos versos: el “fuelle” condensa lãs nociones de miséria, de melancolia y de dolor de La vida del subúrbio porteño, visto bajo La luz mortecina de los faroles callejeros. Numerosos son los tangos donde el que canta se dirige al bandoneón como a um interlocutor o confidente, estrechando aún más la relación entre música y instrumento.
Así, cuando se trata de las tristes heroínas de los cabarets porteños, cuya efímera gloria termina siempre em el hopsital y el abandono, se dice de ellas que se apagaron bajo “ el arrullo funeral del bandoneón” (Griseta). En las horas del triunfo o de la desolación, el “fuelle” está siempre ahí porque, como lo definió admirablemente Cátulo Castillo, es para nosostros “un corazón que suena”. Poco a poco, de fragmentos múltiples que, cuando tiene ganas de sonar bien, cuando es tocado por alguien que merece tenerlo entre las manos, vale por toda una orquestra y le da al tango su más alta belleza.
Así, cuando se trata de las tristes heroínas de los cabarets porteños, cuya efímera gloria termina siempre em el hopsital y el abandono, se dice de ellas que se apagaron bajo “ el arrullo funeral del bandoneón” (Griseta). En las horas del triunfo o de la desolación, el “fuelle” está siempre ahí porque, como lo definió admirablemente Cátulo Castillo, es para nosostros “un corazón que suena”. Poco a poco, de fragmentos múltiples que, cuando tiene ganas de sonar bien, cuando es tocado por alguien que merece tenerlo entre las manos, vale por toda una orquestra y le da al tango su más alta belleza.
Cosas así explican que los argentinos nos sintamos tan identificados com el bandoneón, y que hablemos como se habla aqui, diciendole familiarmente:
Buenos noches, che bandoneón, qué Bueno verte bien y en tan buenas manos...
No se me ponga modesto, Don fuelle; hágame escuchar suas músicas mientras yo lo acompaño com vino y tabaco y tantas nostalgias, todo eso que lleva los muchos nombres que usté tiene, porque usté se llama Ciriaco Ortiz, se llama Federico, se llama Laurenz, se llamma Piazzolla, se llama Pichuco, se llama tantos otros, y esta noche se llama Juan José Mosalini. Ya ve si lo conozco; respire a fondo y déle, cuénteme de ese Buenos Aires tan lejano ahora para mi, cuénteme de mi propia vida de pibe y de muchacho...
Y gracias, Che bandoneón
Julio Cortázar.
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